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Brasil Running Adventure Race

A Brasil Running Adventure Race √© uma corrida de 160 km realizada no Parque Nacional dos Len√ß√≥is Maranhenses. A competi√ß√£o acontece ao longo de dunas, estradas de areia e lagoas em car√°ter de autossufici√™ncia onde os atletas devem carregar todos os seus mantimentos e equipamentos obrigat√≥rios al√©m de percorrerem o trajeto com aux√≠lio de GPS. √Č fornecido pela organiza√ß√£o apenas √°gua em postos de controle distantes em m√©dia de 20 a 30 km. As condi√ß√Ķes clim√°ticas s√£o extremas com temperaturas que chegam a 40¬įC durante o dia e 30¬įC a noite e umidade que varia de 75 a 95%. Trata-se de uma competi√ß√£o para atletas de alta resist√™ncia, que tem experi√™ncia em provas de longa dist√Ęncia e em terrenos in√≥spitos.

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é um parque nacional brasileiro criado em 2 de junho de 1981. Está situado no litoral oriental do estado do Maranhão envolvendo os municípios de Humberto de Campos, Primeira Cruz, Santo Amaro e Barreirinhas. São 155 mil hectares com mais de 100 mil dunas e cerca de 5 mil lagoas. A vegetação por baixo das dunas, resquício de antigos mangues, impermeabilizam o solo e ajudam a manter as lagoas por grande parte do ano, fazendo com que as águas sequem somente por evaporação.

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A largada da prova acontece na cidade de Barreirinhas seguindo na direção nordeste por estradas de areia e dunas ao longo dos Pequenos Lençóis chegando até o litoral na cidade Paulino Neves. Em seguida segue pela praia na direção noroeste até o povoado de Caburé onde se realiza a travessia do rio Preguiças chegando ao povoado de Atins. A partir deste ponto se ingressa no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses se dirigindo no sentido sudoeste até as proximidades da Lagoa Bonita tomando em seguida à direção noroeste passando pelo povoado de Baixa Grande e Queimada dos Britos. A corrida termina na cidade Santo Amaro do Maranhão.


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Depois de uma viagem exaustiva saindo de Belo Horizonte, passando por Brasília e São Luís, cheguei a Barreirinhas já na madrugada de quinta-feira. No dia seguinte acordei cedo para começar os preparativos para a corrida que teria largada na sexta-feira pela manhã. Separei todos os equipamentos que iria utilizar para a verificação por parte da organização. Neste tipo de competição, os organizadores seguem critérios rigorosos quanto aos equipamentos obrigatórios que cada atleta deve portar durante a prova garantindo assim a segurança dos mesmos. Caso os atletas não estejam portando todos os equipamentos exigidos pela organização os mesmos podem ser desclassificados da competição. Tinha conferido diversas vezes os equipamentos obrigatórios e não tive nenhum problema com a verificação.

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Aproveitei o restante do dia para descansar, caminhar um pouco pela cidade e me aclimatar com o calor e a umidade que nesta regi√£o √© bastante elevada. A noite foi realizado o congresso t√©cnico onde recebemos o n√ļmero de inscri√ß√£o, o arquivo do GPS com o percurso e demais informa√ß√Ķes sobre a prova. Fomos informados que o hor√°rio da largada tinha sido alterado para meio-dia devido a um trecho em que √© necess√°ria a travessia de barco do Rio Pregui√ßas com a mar√© cheia. Caso cheg√°ssemos neste ponto com a mar√© baixa, o barco poderia ficar preso nos bancos de areia. Esclarecemos todas as nossas d√ļvidas com a organiza√ß√£o e finalizamos a noite com um jantar de massas em um restaurante as margens do rio Pregui√ßas.
 
 
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Na sexta-feira acordei cedo e conferi minuciosamente cada equipamento colocando tudo com muito cuidado dentro da mochila. Preparei as garrafas de água e de bebidas eletrolíticas, separei tudo que utilizaria no trecho inicial da prova e por fim entreguei a organização uma bolsa com equipamentos reserva e comida extra que estaria disponível no terceiro posto de controle localizado no povoado de Caburé conforme regulamento da competição. Preparei o meu pé com muito cuidado procurando proteger as partes mais susceptíveis à formação de bolhas com fita elástica e esparadrapo nos dedos, coloquei a roupa que iria competir sempre verificando possíveis dobras e enrugamentos e me dirigi para a saída do hotel para me juntar aos demais atletas.


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Sa√≠mos do hotel caminhando em dire√ß√£o as margens do rio Pregui√ßas onde seria dada a largada da prova. O sol estava muito forte e a sensa√ß√£o t√©rmica era de mais de 40¬įC. A mochila pesava naquele momento aproximadamente 7 kg entre √°gua, comida e equipamentos obrigat√≥rios. Neste momento procurei me afastar por alguns minutos, como fa√ßo sempre para me concentrar e agradecer por ter chegado bem at√© aquele momento. Depois de meses de treinamento duro estava pronto para come√ßar aquela batalha.

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√Äs 12 horas e 15 minutos foi dada a largada e partimos em dire√ß√£o ao desconhecido. Os primeiros cinco quil√īmetros foram percorridos ainda nos limites da cidade de Barreirinhas.
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Desde o início da prova, eu e o atleta de Taiwan seguimos a frente dos demais imprimindo um ritmo forte mesmo com o calor e a umidade que dificultava bastante à corrida. Apenas esse trecho estava demarcado com fitas de sinalização colocadas pela organização.

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Ap√≥s sairmos dos limites da cidade de Barreirinhas come√ßamos a correr por uma estrada de areia fina e quente que fazia os p√©s queimarem. Neste trecho ventava pouco e junto com o calor que subia do ch√£o fazia nossos corpos aquecerem muito. Mesmo assim, com aproximadamente dez quil√īmetros de prova percebi que o corpo estava come√ßando a se adaptar aquelas condi√ß√Ķes e tratei de seguir me hidratando e imprimindo um ritmo forte. Era preciso ter muita aten√ß√£o, pois existiam diversos caminhos e o percurso da prova n√£o era marcado devendo os atletas se orientarem com GPS. Errei o caminho em alguns momentos, mas consegui corrigir rapidamente evitando assim grandes perdas de tempo.


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Ap√≥s 15 km percebi que o atleta de Taiwan come√ßava a sentir o forte calor e o ritmo da prova que para aquelas condi√ß√Ķes era alucinante. Mantive o foco e segui em frente sabendo que a partir daquele momento estaria sozinho. Como nunca havia participado de uma competi√ß√£o de 160 km e ainda mais naquelas condi√ß√Ķes tinha d√ļvida se o ritmo n√£o estava forte demais, o que poderia me comprometer nos trechos finais da prova. Senti que meu corpo reagia bem √†quela situa√ß√£o e procurei manter a concentra√ß√£o me alimentando e hidratando o tempo todo. Cheguei a pensar em diminuir um pouco o ritmo, mas como me sentia bem resolvi que seguiria daquela maneira at√© o fim e quando as pernas n√£o aguentassem mais continuaria mesmo assim fazendo for√ßa. O nosso corpo tende a zona de conforto sempre e precisamos o tempo todo usar a mente para mostr√°-lo quem verdadeiramente manda.


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O primeiro posto de controle estava localizado no km 21, logo ap√≥s um pequeno riacho onde a organiza√ß√£o estava aguardando os atletas. Cheguei por volta das 14h40min fazendo uma parada r√°pida para reabastecer as garrafas de √°gua, preparar a bebida eletrol√≠tica, receber algumas informa√ß√Ķes sobre o pr√≥ximo trecho e retornar a corrida.

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Continuei correndo pela estrada de areia passando por diversas casas onde as pessoas olhavam com certo receio. Após percorrer 5 km cheguei à região denominada de Pequenos Lençóis. Foi um trecho curto onde corri pela primeira vez desde o início da prova por dunas e atravessei as primeiras lagoas. Foi uma sensação indescritível podendo admirar um pouco aquela paisagem exuberante. Aproveitei a primeira experiência da água para ver como os pés reagiriam e já me preparar psicologicamente para o que estava por vir.


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J√° conseguia avistar a cidade de Paulino Neves onde estava localizado o segundo posto de controle. At√© chegar a cidade continuei correndo por estradas de areia e pastos secos. O segundo posto de controle estava localizado no km 37 que cheguei por volta das 16h45min. Haviam muitas pessoas na pra√ßa da cidade observando tudo com olhares curiosos. Reabasteci novamente as garrafas de √°gua, preparei mais bebidas eletrol√≠ticas, recebi as informa√ß√Ķes necess√°rias at√© o pr√≥ximo posto de controle e segui a minha jornada. Neste momento j√° tinha aproximadamente uma hora de vantagem sobre o atleta de Taiwan segundo informado pela organiza√ß√£o.


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Na sa√≠da da cidade fiz algumas confus√Ķes e acabei perdendo um pouco de tempo at√© encontrar o caminho novamente. Retornei a regi√£o dos Pequenos Len√ß√≥is onde atravessei diversas lagoas, subi e desci in√ļmeras dunas em dire√ß√£o √† praia. O sol j√° estava se pondo com um final de tarde maravilhoso quando avistei do alto de uma duna a imensid√£o do mar. Foi um momento √ļnico onde pude apreciar tamanha beleza e receber pela primeira vez a brisa fresca vinda do oceano. O calor e a umidade continuavam imponentes, por√©m j√° n√£o me incomodavam mais como no in√≠cio da prova.

Comecei a me preparar para a noite que estava por vir. Seria um verdadeiro desafio para o corpo e para a mente suportar por quase dozes horas o isolamento, a escuridão, o silêncio e a imensidão do deserto. Durante muitos meses imaginei este momento para que fosse enfrentado com foco e determinação sem pensar nos medos e nas dificuldades que poderiam surgir.

At√© chegar a beira da praia percorri um trecho com areia solta onde os p√©s afundavam bastante dificultando assim a corrida. Aproveitei para fazer uma caminhada enquanto retirava da mochila a lanterna e fazia a reposi√ß√£o de comida nos bolsos frontais da mochila. Procurei verificar todos os equipamentos enquanto existia luz natural. Os p√©s estavam molhados, mas n√£o haviam sinais de bolhas. As prote√ß√Ķes colocadas antes da prova estavam funcionando bem o que me assegurava chegar aos trechos mais dif√≠ceis da competi√ß√£o com os p√©s ainda intactos.


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Quando a noite caiu estava correndo na beira do mar onde conseguia imprimir novamente um ritmo forte, pois neste ponto a areia estava compactada. Era possível observar que a maré estava subindo lentamente e em alguns pontos era inevitável não molhar os pés. Esse trecho tinha 27 km em sua grande maioria percorrido a beira mar.

Estava indo tudo bem quando comecei a perceber que me afastava da praia. Conferi no GPS o tra√ßado e achei que estava certo quando ap√≥s alguns quil√īmetros me deparei com uma floresta j√° chegando √†s margens do rio Pregui√ßas. Conferi novamente o GPS e percebi o erro. O arquivo de refer√™ncias n√£o havia registrado o posto de controle e tra√ßou uma reta at√© o pr√≥ximo ponto do outro lado do rio. Procurei manter a calma fazendo uma pausa e analisando com calma as informa√ß√Ķes para corrigir da melhor maneira o desvio.


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Planejei a nova rota e retornei em dire√ß√£o a praia tentando correr o mais r√°pido que podia, pois n√£o sabia exatamente que dist√Ęncia tinha de vantagem para o segundo colocado. Ap√≥s corrigir a rota, corri por mais 4 km e cheguei ao terceiro posto de controle que estava situado em um hotel as margens do rio Pregui√ßas por volta das 20h15min.

No posto de controle fui recebido por diversos atletas que estavam participando da prova em etapas que tinha começado dois dias atrás e que largariam daquele ponto no dia seguinte para mais um trecho da competição. No total iriam percorrer 126 km em quatro dias de prova correndo trechos que variavam de 26 a 38 km.


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Todos os atletas procuravam me ajudar como podiam. Neste posto estava a bolsa que havia entregado a organização antes da largada contendo os equipamentos reserva e comida para suportar até o final da prova.

Tinha percorrido até aquele momento aproximadamente 65 km correndo o tempo todo na areia. Estava um pouco cansado, mas bastante confiante e preparado para entrar no parque onde enfrentaria o trecho mais duro com muitas dunas para subir e descer além das diversas lagoas com profundidades variadas.

Fiz a travessia de barco cruzando o rio Pregui√ßas que durou aproximadamente dez minutos. Durante o trajeto recebi as √ļltimas informa√ß√Ķes e recomenda√ß√Ķes da organiza√ß√£o, pois estaria a partir daquele momento completamente sozinho por horas e sem nenhum apoio devendo seguir fielmente as coordenadas do GPS at√© o pr√≥ximo posto de controle que estaria dentro do parque a uma dist√Ęncia aproximada de 32 km.

Desci do barco e iniciei a corrida passando pelo vilarejo de Atins. Ap√≥s 4 km cheguei a um pequeno restaurante que seria minha √ļltima parada para reabastecimento de √°gua antes de entrar no parque. Enchi todas as garrafas de √°gua, preparei as bebidas eletrol√≠ticas e parecendo um sonho, me deliciei com uma Coca-Cola que estava estupidamente gelada. Conversei rapidamente com o pessoal do restaurante, respirei fundo e iniciei uma longa jornada em dire√ß√£o as dunas.
Ap√≥s alguns quil√īmetros de corrida me deparei com as primeiras dunas. Pareciam verdadeiras montanhas de areia em alguns pontos compactada, em outros, solta. Era preciso muita for√ßa para subir correndo e cuidado e aten√ß√£o nas descidas onde em geral, se terminava em lagoas com √°gua a diferentes profundidades. O deslocamento dentro da √°gua era dif√≠cil, tomando muito tempo e gerando um desgaste elevado. Algumas lagoas chegavam a ter quase um quil√īmetro de extens√£o onde era preciso muita calma e concentra√ß√£o para atravess√°-las. A √°gua era cristalina e em alguns pontos haviam plantas aqu√°ticas.


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Procurei analisar a partir das fotos de satélite que tinha no GPS e com o auxilio da lanterna de cabeça pontos em que fosse possível seguir pela crista das dunas evitando ao máximo as descidas e grandes caminhadas dentro das lagoas. Na grande maioria das vezes não era possível. Os pés se mantinham encharcados e cheios de areia o tempo todo tornando o deslocamento ainda mais difícil.

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Era noite de lua nova e a escurid√£o era total. Em alguns momentos apaguei a lanterna e fiquei apreciando o c√©u que estava completamente estrelado. N√£o se via nada ao longe e o sil√™ncio era assustador sendo quebrado apenas pelas rajadas de vento. Foram horas sozinho atravessando aquela imensid√£o de areia. Aproveitei o momento para fazer algumas reflex√Ķes e pensar um pouco na vida e na alegria que estava sentindo por estar correndo em um lugar t√£o bonito e in√≥spito.
 
Depois de v√°rias horas subindo e descendo dunas comecei a avistar ao longe a luz de sinaliza√ß√£o que indicava a localiza√ß√£o do posto de controle onde encontraria com uma pessoa da organiza√ß√£o para reposi√ß√£o de √°gua e registro de passagem. Neste momento estava me aproximando do limite sul do parque onde atravessei algumas regi√Ķes com vegeta√ß√£o rasteira.

Depois de percorrer os √ļltimos 25 km sozinho cheguei ao posto de controle por volta das 02h15min da manh√£. Minhas garrafas de √°gua j√° estavam na reserva e o cansa√ßo era vis√≠vel ap√≥s 100 km de corrida com temperaturas elevadas durante o dia e a noite. Como de costume, reabasteci as garrafas, preparei as bebidas eletrol√≠ticas e sem pensar muito segui em frente. Ainda tinha um longo trecho a ser percorrido durante a noite.

Procurei manter o ritmo fazendo o máximo de força sem pensar na vantagem que poderia ter em relação aos demais até mesmo porque essa informação eu não tinha naquele momento e como a prova ainda teria um longo trecho a ser percorrido tudo poderia acontecer.
Por volta das quatro da manh√£ iniciei uma travessia ao longo de uma lagoa como j√° estava fazendo h√° v√°rias horas. √Ä medida que fui entrando na √°gua percebi que a profundidade aumentava gradativamente. Quando a √°gua j√° estava acima da cintura comecei a ficar preocupado. Procurei direcionar a lanterna para o outro lado da lagoa e n√£o consegui enxergar a margem. Naquele momento senti muito medo e apreens√£o, pois estava no meio de uma lagoa, com √°gua acima da cintura, completamente isolado e no escuro h√° quase dez horas. Respirei fundo procurando n√£o pensar nas adversidades e sim em concentrar-me para sair da √°gua o antes poss√≠vel. Fazia muita for√ßa e me deslocava pouco devido a √°gua e a areia no fundo que dificultava a caminhada. A lagoa tinha quase um quil√īmetro de extens√£o e gastei aproximadamente 15 minutos para realizar a travessia. Cheguei do outro lado completamente cansado e ofegante, mas aliviado por ter superado aqueles minutos que pareceram uma eternidade.


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Segui em frente sentindo as pernas cansadas e comecei a perceber que a cabe√ßa j√° dava os primeiros sinais de exaust√£o. J√° n√£o estava mais aguentando correr naquela escurid√£o e comecei a olhar as horas esperando ansioso pelos primeiros sinais de dia. Em provas de longa dist√Ęncia √© muito importante manter a cabe√ßa focada e sempre com pensamentos positivos.

Por volta das 05h30min o céu começou a clarear e sabia que era questão de tempo até o sol surgir no horizonte. Apaguei a lanterna e percebi o quanto já me sentia bem com aquela situação. Continuei correndo e caminhando sem parar tentando aproveitar o início do dia para me deslocar o mais rápido possível, pois sabia que quando o sol surgisse e junto com ele o calor, o ritmo diminuiria.

Por volta das 06h15min da manhã estava chegando ao povoado de Baixa Grande onde estaria o quinto posto de controle. Um verdadeiro oásis no meio daquela imensidão de dunas de areia onde vivem atualmente seis famílias. Quando cheguei ao povoado havia me esquecido que era ali o posto de controle e como ainda era bem cedo passei correndo pela vila quando ouvi um grito. Era uma pessoa da organização da prova que estava dormindo em uma rede e percebeu a minha passagem. Ele tinha passado a noite toda em claro a espera dos atletas, pois não sabia que o horário da largada tinha sido alterado para meio-dia devido às dificuldades de comunicação, e justamente no momento que eu estava passando acabou dormindo. Fui muito bem recebido pelos moradores locais que me forneceram água para reabastecer minhas garrafas e preparar as bebidas eletrolíticas.


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Desde o √ļltimo posto de controle tinha percorrido aproximadamente 21 km e durante este trecho comecei a sentir um forte incomodo na sola do p√© que provavelmente seria uma bolha. Resolvi que era hora de aproveitar as instala√ß√Ķes do local, retirar o t√™nis e fazer um reparo. Os p√©s estavam completamente castigados por estar a tanto tempo molhados. Peguei um canivete que carregava comigo, furei a bolha e coloquei esparadrapo para proteger o local. Fui informado que este era o √ļltimo posto de controle da prova e que daquele ponto at√© a chegada faltavam aproximadamente 40 km.

Os quil√īmetros seguintes foram percorridos ao longo de uma vegeta√ß√£o rasteira com grandes deslocamentos dentro da √°gua. Seguia em dire√ß√£o a outro o√°sis denominado Queimada dos Britos que estava distante aproximadamente 8 km. O local √© um povoado fundado pela fam√≠lia dos Britos que chegaram nessa regi√£o no s√©culo passado, fugidos de uma forte seca no Cear√° e acabaram fundando uma comunidade na √ļnica regi√£o n√£o arenosa dos Len√ß√≥is.


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Chegando ao lugarejo reabasteci novamente as garrafas de água e segui em direção à cidade Santo Amaro onde terminaria a prova. Faltava pouco mais de 30 km até a chegada, mas procurei manter a concentração e o foco.

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J√° passava das 08h30min da manh√£ e o calor era muito forte o que me fazia manter um ritmo mais conservador. O trecho final era repleto de dunas com grandes eleva√ß√Ķes e descidas √≠ngremes exigindo muito das pernas que neste momento j√° estavam completamente fadigadas. Procurei manter o foco e pensar apenas em n√£o parar. Alternava corrida e caminhada aproveitando as lagoas para jogar √°gua no corpo aliviando assim o calor.

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Devido √† baixa velocidade de deslocamento e ao calor comecei a perceber que estava ingerindo uma quantidade grande de l√≠quidos e que provavelmente n√£o seria suficiente at√© a chegada. Foi o √ļnico momento da prova que fui obrigado a racionalizar um pouco para garantir que teria l√≠quido at√© o final.

Ao longe j√° se avistava a cidade de Santo Amaro e neste momento comecei a perceber que poderia vencer a prova embora ainda tivesse aproximadamente 5 km pela frente. Procurei manter a cabe√ßa concentrada na prova, mas minha mente j√° estava tomada por pensamentos. Fiquei relembrando cada momento que passei nos √ļltimos seis meses me preparando para a prova, na ajuda e apoio incondicional que tive dos amigos e familiares e tudo que aconteceu na minha vida desde que comecei a correr no ano de 2007. Estava prestes a realizar um sonho e vencer minha primeira competi√ß√£o.

Aos poucos as dunas e o deserto iam ficando para tr√°s, dando lugar a vegeta√ß√£o rasteira e a cidade que j√° estava cada vez mais pr√≥xima. Segui correndo e um leve sorriso misturado √† emo√ß√£o e dor tomou conta do meu rosto. Entrei na cidade e fui direto para o √ļltimo ponto do GPS as margens do rio. Uma emo√ß√£o muito grande de terminar uma prova muito dura e exigente em primeiro lugar.

Após 23h59min sem parar tinha percorrido os 160 km e cruzado aquela imensidão de areia e água carregando comigo tudo e todos que me ajudaram de maneira direta ou indiretamente a cumprir mais um grande objetivo da minha vida.

Durante todo esse tempo correndo me passaram diversos pensamentos e reflex√Ķes sobre tudo que estava fazendo na minha vida desde que comecei a correr meu primeiro quil√īmetro h√° quase cinco anos. O que posso dizer √© que acima de tudo devemos sonhar e acreditar que √© poss√≠vel. Com esfor√ßo, dedica√ß√£o e perseveran√ßa, podemos ir muito al√©m do que imaginamos.

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coment√°rios  

 
0 #1 06-06-2013 19:45
Parabéns xará,
continue assim e sucesso nas suas aventuras

Pelo o que entendi, vc venceu a prova né?
Foram quantos competidores?

Abraço.
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