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Volta na Ilhabela / SP - A Travessia do Apocalipse

O mundo n√£o acabou e eu n√£o tive tempo de postar o relato antes que ele acabasse(rsrsrsrsr) mesmo fora do contexto, ai vai ele.

VOLTA √Ä ILHA BELA ‚ÄďSP - A TRAVESSIA DO APOCALIPCE.

_ VAIIII LENA! Gritou meu amigo Dema. A Lena n√£o foi. Deu uma escorregada numa pedra e por La ficou, chorando e em estado de p√Ęnico. A menina havia dado um show nas trilhas. Aguentara de tudo, desde trilhas com altos aclives, travessia por mato fechado, onde tivemos que enfrentar terr√≠veis taquaru√ßus espinhudos, hav√≠amos passado por gretas potencialmente perigosas, enfrentado borrachudos ferozes e por v√°rias vezes perdemos as trilhas e andamos vagando meio sem rumo e por caminhos incertos, hora tendo por companhia, uma chuvinha fria e hora enfrentando o morma√ßo infernal da mata atl√Ęntica. Mas a Lena havia chegado ao seu ponto fraco, mesmo com colete, ela se recusava a se atirar no mar e nadar at√© o pequeno barquinho de pesca de camar√£o que veio nos tirar da enrascada em que hav√≠amos nos metido. O Dema estava nervoso, sabia que n√£o havia tempo a perder. O barquinho balan√ßava de um lado para o outro e corria o risco de bater no cost√£o e naufragar. N√£o teve jeito, o Dema empurrou sua esposa no mar e se jogou atr√°s dela. A Lena foi. Nadou mais depressa que o Cesar Cielo e quando chegou √Ę borda do barquinho, implorava para n√£o morrer. O meu amigo subiu no barco e com a ajuda do pescador, a puxou para dentro. Metade dos problemas estava resolvido. A outra metade era convencer o Dema que n√£o poder√≠amos seguir sem nossas mochilas. Ele insistia em largar tudo √† beira do cost√£o e salvar nossas vidas. Eu estava resoluto a n√£o embarcar em barco algum sem minha mochila. Do barco vi quando ele fez um sinal para eu levar as mochilas para outra pedra, em um lugar mais abrigado. Carreguei as tr√™s cargueiras para o local indicado, enquanto o pescador tentava desesperadamente segurar o barco para que ele n√£o batesse nas rochas. Quando terminei de carregar as mochilas por uma grande pedra que tinha que ser escalada, retirei minhas botas, as perneiras anti-cobra e esperei o meu resgate. Foi a√≠ que vi o barquinho dar meia volta e come√ßar se afastar do cost√£o. Na minha cabe√ßa se passou apenas uma frase: Merda, esses filhos da puta v√£o me largar aqui mesmo?

‚ÄúO primeiro anjo tocou a trombeta; formou se uma chuva de granizo e fogo, de mistura com sangue que foi atirada sobre a terra e foi queimada a terceira parte das √°rvores e toda a erva verde‚ÄĚ O terceiro anjo tocou a trombeta; caiu do c√©u uma grande estrela, a arder como um facho...... e muitos homens morreram.... ‚Äú

Anunciado o FIM DO MUNDO para dezembro e como t√≠nhamos pela frente um dos maiores feriados de todos os tempos, resolvemos come√ßar as comemora√ß√Ķes deste grande evento mundial com uma mega travessia. Para essa grande caminhada, foram convocados v√°rios amigos, mas somente toparam o desafio, meu velho amigo Prof.: Dema e sua esposa Lena, e ainda nosso amigo Jo√£o Paulo, que carinhosamente costumo chamar de ‚Äú melindroso‚ÄĚ. A caminhada n√£o poderia ser outra, A VOLTA √Ä ILHA BELA, caminhada que eu j√° esperava para realizar a v√°rios anos e n√£o havia feito ainda porque n√£o tinha conseguido os seis ou sete dias de folga que seria preciso para realizar tal fa√ßanha. Juntando portando, os feriados da Rep√ļblica e da consci√™ncia Negra, embarcamos para Caraguatatuba em um √īnibus que partiu da rodovi√°ria de Campinas e que √†s 23 horas nos deixou no litoral. O pr√≥ximo √īnibus para Caragu√°, s√≥ sairia √† meia noite e dez e enquanto esper√°vamos , colou em n√≥s um pseudo taxista que nos ofereceu para nos levar a S√£o Sebasti√£o por 50 reais. O problema n√£o era o pre√ßo, mas a cara do sujeito. No fim o cara baixou o pre√ßo para menos de 20 reais, mas eu estava resoluto a n√£o ir nem que fosse de gra√ßa e minhas desconfian√ßas foram compartilhada com todos os outros integrantes. Foi quando dei logo um passa fora no meliante, que depois ficou nos jogando indireta. Foi a√≠ que sacamos de vez qual era a inten√ß√£o do sujeito. Mas a√≠ o Dema j√° havia dito onde pretend√≠amos descer, j√° que a nossa inten√ß√£o era passar o resto da noite na casa dos primos do Dema que mora na Enseada. Pelo sim, pelo n√£o, resolvemos tocar direto com o √īnibus at√© a balsa para Ilha Bela, onde desembarcamos l√° pela uma hora da madrugada.

ILHA BELA, maior ilha mar√≠tima do Brasil, capital brasileira da vela, o maior percentual de mata atl√Ęntica preservada do Brasil, a ilha com os maiores picos, mais de 300 cachoeiras e corredeiras, triangulo das bermudas brasileira, capital intergal√°ctica dos borrachudos. De longe um dos lugares mais enigm√°ticos e misteriosos do Brasil. Foi nesse lugar que pisamos depois que a balsa atravessou o grande canal que a separa do continente, que n√£o leva mais que meia hora de travessia. Assim que atravessamos, andamos uns 10 minutos e viramos a direita na estrada principal que se dirige para o sul da ilha. Fomos subindo pelo asfalto e 2 km depois chegamos a Praia de Pedras Mi√ļdas, bem no portinho de onde sai as embarca√ß√Ķes que se dirigem at√© a ilha das Cabras, n√£o mais de 500 metros mar adentro, na verdade no meio do canal. A praia de Pedras Mi√ļdas tem uma faixa de areia curta, com √°guas bem calmas. Ali um grande quiosque foi constru√≠do, com um deck que praticamente invade a areia, e foi ali que resolvemos passar a noite, embaixo do deck e protegido dos curiosos. N√£o montamos barraca, apenas bivacamos com nossos isolantes e sacos de dormir.

O dia amanheceu lindo e logo cedo nos levantamos, enfiamos tudo na mochila e nos dirigimos para o ponto de √īnibus que ficava a n√£o mais de 10 metros da prainha. Meia hora depois o √īnibus que se dirige para o sul da ilha passou. Seu trajeto √© a beira mar e apesar do feriado, ficou apinhado de gente. O ‚Äúpinga-pinga‚ÄĚ levou quase uma hora para chegar ao seu final, que tamb√©m √© onde o asfalto acaba, em um local conhecido como Borrifos, perto da ponta da Sep√≠tuba. Descemos da lata de sardinha e continuamos enfrente, agora caminhando pela estradinha de terra, que logo cruza por um riacho e entra de vez na floresta. Meia hora depois, j√° no final da estrada e onde efetivamente come√ßa a trilha para Bonete, paramos para tomar um caf√© no estacionamento, onde tamb√©m se pode acampar. Eu j√° conhecia o casal de pescadores que moram ali h√° muito tempo e aproveitei para rev√™-los. Com a barriga cheia, demos in√≠cio a nossa caminhada, mas antes tivemos que nos reportar a um funcion√°rio da prefeitura de Ilha Bela , que estava na entrada da trilha para fazer a contagem dos caminhantes que se destinavam a Praia do Bonete.

Logo na entrada da trilha, uma placa j√° meio enferrujada descreve como sendo o ano de 1.984 o ano do t√©rmino da estrada que ligaria a cidade de Ilha Bela a Praia do Bonete. Uma frase t√≠pica da ditadura militar enfatiza: O IMPOSS√ćVEL TORMA-SE POSS√ćVEL. Como a natureza tava ‚Äúcagando e andando‚ÄĚ para qualquer general, n√£o demorou muito e tomou de volta o que lhe pertencia e hoje a velha estradinha n√£o passa de uma larga trilha que rasga a imensa floresta. Menos de uma hora depois est√°vamos na cachoeira da Laje, que agora conta com uma enorme ponte p√™ncil . Aproveitamos o tempo abafado e nos lan√ßamos piscina natural adentro. No local tamb√©m havia um escorregador natural, onde uma pedra no final da descida ralava o ‚Äúfiof√≥‚ÄĚ de quem se aventurava queda abaixo. Retomamos a caminhada ladeira acima e em mais uma hora chegamos √†s cachoeiras do Areado e 10 metros antes de atravessar o riacho, pegamos uma discreta trilha para a direita que nos levou para uma pequena prainha, que por causa da mar√© alta n√£o tinha um palmo de areia √† mostra. Ficamos uma meia hora por l√° descansando e olhando √†quele marz√£o sem fim, com ondas gigantescas que explodiam nas rochas. Menos de quinze minutos depois j√° est√°vamos de volta ao rio Areado e como come√ßou a garoar partimos rapidamente e a√≠ tivemos que enfrentar outra grande subida com lama escorregadia. Como n√£o h√° sofrimento que dure para sempre, uma hora a subida arrefece de vez e surge a nossa frente a vis√£o espetacular da PRAIA DO BONETE.

As 16h00min aproximadamente chegamos a uma bifurca√ß√£o do lado direito da trilha que em 5 minutos nos leva ao grande mirante do Bonete. Uma Rocha gigantesca, onde a paisagem se abre de frente para a grande praia, que por incr√≠vel que pare√ßa, apesar do feriado, estava completamente vazia. Voltamos para a trilha principal e em meia hora pisamos na areia de Bonete, onde fomos caminhando calmamente, aproveitando a brisa que vinha do mar. Fomos √† procura de um camping para montarmos nossas barracas, n√£o demorou muito j√° encontramos um dos dois campings do Bonete, que estava vazio, sem nenhuma barraca. O pre√ßo pedido pelo camping era baixo, considerando que est√°vamos em pleno mega feriado prolongado, meros 10 reais. O Dema n√£o gostou da √°rea, achou um pouco suja de mais. Eu n√£o vi esta sujeira toda e logo notei que meus amigos n√£o estavam nem um pouco a fim de gastar nosso mirrado dinheirinho pagando √°rea de camping. Como eu tamb√©m n√£o tava nem ai pra coisa, tamb√©m deixei de lado essa ideia de acampar em um lugar estruturado. A fome j√° havia apertado faz tempo e ent√£o partimos para o riacho que desaguava ali na praia. Passamos por dentro do vilarejo, cruzamos um riachinho junto a umas casas, viramos √° direita e chegamos √† ponte p√™ncil que cruza o lindo rio de √°guas cristalinas. Descemos at√© o rio e tratamos logo de colocarmos as panelas no fogo. Enquanto o almo√ßo cozinhava a Lena e o Jo√£o foram tomar banho nas piscinas naturais e depois ficaram jogando conversa fora trajando apenas roupas de banho. Foi nessa hora que os nossos amigos foram surpreendidos pelo mais feroz animal desta fant√°stica ilha. Sem que percebessem foram atacados pelas costas pela ‚Äú Besta voadora‚ÄĚ, o ILHABELUS CARNIVURUS, popularmente conhecido como borrachudo(rsrsrsrsrs). O animal ‚Äúselvagem‚ÄĚ fez um estrago nas costas da Lena e do Jo√£o, uma marca que eles teriam que carregar pelo resto da viagem.

J√° estava quase escurecendo quando terminamos de almo√ßar (jantar), quando resolvemos voltar para a praia e bivacar na areia, isso √©, dormir sem montar barraca para n√£o chamar a aten√ß√£o de ningu√©m. Sentamos embaixo de uma √°rvore bem na entrada da vila, perto de onde havia um quiosque coberto e com piso de madeira. Aproveitei a chegada da noite para ir tomar banho pelado na foz do riacho. O Dema foi o √ļnico que dormiu sem tomar banho, credo! Quando voltei do banho noturno meus tr√™s amigos j√° haviam pegado no sono e foi preciso acord√°-los para colocar em pr√°tica nosso plano: Esperar escurecer e estender nossos isolantes e sacos de dormir dentro da cobertura do quiosque. Fizemos isso e tivemos uma noite maravilhosa.

‚ÄúO quarto anjo tocou a trombeta; foi ferida a ter√ßa parte do sol, a ter√ßa parte da lua e a ter√ßa parte das estrelas, de maneira que se obscureceu a sua ter√ßa parte e o dia perdeu a ter√ßa parte do seu brilho, assim como tamb√©m a noite. Depois vi e ouvi a voz de uma √°guia, que voava pelo meio do c√©u, a qual dizia em voz alta:Ai.ai,ai dos habitantes da Terra, por causa das outra vozes dos tr√™s anjos que v√£o tocar a trombeta‚ÄĚ.

√Äs seis da manh√£ nos pomos de p√©, tomamos caf√© e nos despedimos desta grande e linda praia. Tomamos novamente o caminho para dentro do vilarejo, passamos pela ponte do riachinho, viramos a direita por entre algumas casas, atravessamos a ponte p√™ncil e viramos √† esquerda e fomos margeando o rio e uns 10 ou 15 minutos depois chegamos √† estradinha. Nosso caminho deveria seguir para a direita, mas antes pegamos para a esquerda e em menos de 3 minutos chegamos ao po√ßo fundo. Um lindo po√ß√£o de √°guas transparentes. Ainda era cedo, mas eu e o Dema n√£o perdemos a oportunidade de dar um mergulho. Voltamos para a estrada, que vai ganhando altura e logo estamos com a Praia do Bonete e seu vilarejo aos nossos p√©s. Outra trilha lateral saindo √† direita nos leva a mais um mirante. O pico de S√£o Sebasti√£o, quase 1400 metros de altitude, o cume da Ilha Bela, est√° encoberto nesta manh√£, sinal de poder√° chover a noite. Voltamos para trilha principal e logo chegamos ao topo da montanha que separa Bonete da Praia das Enchovas. Depois de uma estrat√©gica parada para umas fotos em mais um mirante, foi s√≥ tocar para baixo e em pouco mais de uma hora de caminhada desde a Praia do Bonete, atingimos a Praia das Enchovas. Bela praia, com um riacho no meio. Foi no riacho que paramos para um longo descanso, j√° que o Dema havia esquecido as botas da Lena no topo da montanha e teve que voltar l√° para busc√°-la. Enquanto o Dema enfrentava seu mart√≠rio, aproveitamos para conhecer toda a praia, onde no seu final havia uma grande casa abandonada, um bom lugar para passar a noite, pena que n√£o soubemos disso antes, se n√£o ter√≠amos tocado at√© aqui no dia anterior. Casa habitada mesmo s√≥ havia uma no in√≠cio da praia. Foi l√°, conversando com um simp√°tico pescador que descobri a continua√ß√£o da trilha para a pr√≥xima praia. H√° uma coisa peculiar na Praia das Enchovas, pouco acima da faixa de areia ela √© tomada por uma infinidade de seixos roli√ßos de todos os tamanhos. No mar um grande pared√£o de pedra da uma acalmada nas fortes ondas do local. O Dema voltou. Voltou mais puto do que foi. Voltou para descobrir que n√£o havia esquecido as botas da Lena no topo da montanha, ele as havia deixado atr√°s de uma pedra junto ao riacho da praia onde est√°vamos. (KKKKKKK, se fud.....). Passamos por dentro da propriedade do pescador, cruzamos o riacho por dentro da √°gua e reencontramos a trilha do outro lado. Trilha larga e bem definida com aclives moderados. Logo inesperadamente a trilha se transforma em cal√ßamento e ent√£o demos de cara com uma bifurca√ß√£o iluminada e com c√Ęmera de seguran√ßa. Estamos na mega propriedade dos Olacir de Morais, os antigos reis da soja, j√° foram os maiores plantadores de soja do mundo. O caminho correto √© para a direita, aonde vai aparecendo um monte de espelhos circulares ao longo da estradinha. A√≠ vem a pergunta: Para que diabos serve este monte de espelho? Est√°vamos em um lugar ermo, sem entradas que pudesse ligar a pr√≥xima praia a algum lugar. Sem respostas fomos descendo at√© que chegamos √† entrada da PRAIA DE INDAIA√öBA. Sem d√ļvida uma das mais belas praias de Ilha Bela. √Āguas em v√°rios tons de azul e verde, um espet√°culo s√≥. Do seu lado direito, piscinas naturais, onde mergulhamos para ver os corais e os peixes coloridos. Resolvemos nos demorar mais naquela praia. Decidimos usar o pequeno riachinho que desaguava nas pedras para fazermos nosso almo√ßo. N√£o demorou muito, apareceu um dos capangas dos reis da soja para nos interpelar. Queria saber de onde v√≠nhamos, para onde √≠amos. Minha vontade foi logo de dar um passa fora no jagun√ßo. A praia n√£o era dele e nem de seu amo, que importava o que est√°vamos fazendo ali? Mas como sab√≠amos que ter√≠amos que passar de novo na propriedade deles para pegar a trilha para Castelhanos, resolvemos apenas informar que assim que acab√°ssemos de almo√ßar, picar√≠amos a mula para outra paragens. Logo em seguida vimos quando um quadric√≠culo passou pela estradinha cal√ßada e antes mesmo de nossos queixos ca√≠rem no ch√£o, vi passar enfrente aos meus olhos uma pajeiro novinha. Uma pajeiro para andar apenas uns 500 metros de estrada, trouxeram uma pajeiro de helic√≥ptero ou de balsa para economizar meros 500 metros de caminhada, estava batido o record mundial de ostenta√ß√£o e de pregui√ßa.

De volta √† estrada cal√ßada, bem no in√≠cio da praia, uma placa indica o caminho para Castelhanos. Viramos a esquerda na placa e logo em seguida pegamos para a direita e fomos seguindo pelas mangueiras de √°gua at√© uma pequena barragem acima. Pulamos o pequeno riacho e pegamos a trilha do outro lado. Trilha meio suja, mas bem n√≠tida. Ela logo passa por um imenso bambuzal e a√≠ come√ßa a subir sem d√≥ nem piedade. Foi nesta hora que notamos que o Jo√£o Paulo come√ßava a dar sinal que n√£o ia demorar muito para empacar. J√° come√ßou a reclamar das assaduras e das bolhas nos p√©s, bolhas estas proporcionadas por uma bota snake novinha (eu avisei, rsrsrsrsr). A grande subida durou por mais de hora e depois tamb√©m arrefeceu. Agora as subidas e descidas se alternavam, mas eram mais tranquilas e √°gua tamb√©m n√£o faltava, pois a cada quinze ou vinte minutos cruz√°vamos com algum pequeno riacho. Umas quatro ou cinco horas depois chegamos a um local onde a trilha estava interditada. ‚ÄėArvores e galhos haviam ca√≠do sobre a trilha e fizemos o mesmo que v√≠nhamos fazendo quando encontr√°vamos esse tipo de obst√°culo. D√°vamos a volta e reencontr√°vamos a trilha mais √† frente. Feito isso retomamos de novo o nosso caminho, mas n√£o era mais uma trilha t√£o n√≠tida quanto antes. Era preciso ir lendo os vest√≠gios deixados por fac√Ķes e sinais de folhas remexidas no ch√£o. Andamos uns 10 minutos naquela agonia de n√£o saber ao certo se est√°vamos no caminho correto, at√© que paramos. Era certo que est√°vamos em uma trilha, mas com certeza n√£o era a trilha que deveria nos levar √† praia de Castelhanos. Eu e o Dema resolvemos largar as mochilas com o Jo√£o e a Lena e fomos investigar. Com certeza nosso caminho estaria em algum lugar mais abaixo de n√≥s, do nosso lado esquerdo. Seguimos para essa dire√ß√£o, usando um pequeno vale como refer√™ncia. Descemos uns 15 ou 20 minutos at√© encontrarmos um resqu√≠cio de trilha. Mas era uma trilha igualmente a anterior, fechada e que parecia n√£o ir para lugar nenhum. Resolvemos voltar para junto do Jo√£o e da Lena, mas perdemos a dire√ß√£o e nos vimos perdidos no mato. Mas como somos experientes tratamos logo de usarmos o nosso esquema infal√≠vel. O esquema ‚Äúmorcego barulhento‚ÄĚ e grit√°vamos desesperadamente, at√© ouvirmos o eco das vozes do Jo√£o e da Lena e a√≠ segu√≠amos na dire√ß√£o indicada, rasgando o mato no peito. Logo est√°vamos de volta, agora tendo como companhia a escurid√£o e o breu da floresta. Decidimos ent√£o que o melhor seria acamparmos, j√° que a chuva estava na imin√™ncia de desabar sobre nossas cabe√ßas. Voltamos um pouco e abrimos uma pequena clareira √†s margens de um pequeno riacho. Enquanto o Dema e o Jo√£o montavam as barracas, peguei a lanterna e voltei na trilha para investigar. Toda vez que me vejo fora da trilha principal me bate uma afli√ß√£o. Voltei at√© o local onde a trilha estava interditada e resolvi usar o m√©todo circular para encontrar poss√≠veis caminhos. Dei a volta pela direita e n√£o demorou muito, l√° estava a safada da trilha, bem escondida atr√°s de uma grande √°rvore. Trilha bem larga e bem consolidada. Hav√≠amos dado o azar de sem querer encontrar a trilha que segue para a Praia da Figueira. Ent√£o o que dever√≠amos ter feito, era quando encontramos a trilha interditada, ao inv√©s de for√ßarmos passagem pela interdi√ß√£o, t√≠nhamos que virar a esquerda e pegar a Trilha para Castelhanos depois da grande √°rvore. Voltei para o acampamento feliz da vida de ter reencontrado nosso caminho. Fizemos a janta e nos pinchamos para dentro da barraca e dormimos pesadamente enquanto a chuva caia l√° fora.

‚ÄúO quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela ca√≠da do c√©u sobre a Terra, e foi lhe dada a chave do po√ßo do abismo. Ela abriu o po√ßo do abismo; e subiu uma fuma√ßa do po√ßo, como fuma√ßa de uma grande fornalha, e escureceu o sol e o ar com a fuma√ßa do po√ßo.‚ÄĚ

Levantamo-nos √†s sete da manh√£. Desmontamos tudo, tomamos caf√© e seguimos. A chuva havia parado e o morma√ßo tomava conta outra vez do ambiente. Pegamos a trilha certa e para nossa surpresa em meia hora sa√≠mos no aberto e j√° avistamos a Praia Mansa e meia hora depois j√° est√°vamos atravessando o riacho junto √†s casas dos pescadores. A Mansa √© uma pequena praia de √°guas calmas, com uma orla enfeitada por coqueiros e no seu canto direito um riacho forma uma gostosa lagoa. O mar estava calmo e a √°gua muito transparente. Um lindo gramado bem junto a areia da um charme todo especial a bela prainha. Seguimos para a pr√≥xima praia, que fica logo ap√≥s uma grande subida, do outro lado de um morro. A Praia Vermelha n√£o √© t√£o bonita quanto a Mansa, mas foi l√° que encontramos um pescador que era uma simpatia s√≥, ele queria porque queria que fic√°ssemos para comer umas lulas com ele. Diante do nosso atraso, resolvemos seguir enfrente. Tiramos umas fotos da prainha e voltamos para a trilha, que em menos de 20 minutos nos levou a grande e famosa PRAIA DE CASTELHANOS. Castelhanos que alem de ser o nome da praia, tamb√©m d√° o nome √† baia. O lugar j√° foi um importante entreposto clandestino de tr√°fico negreiro, lugar para desembarque de navios piratas e palco de diversas lendas da ilha. A praia tem uns 2 km em forma de cora√ß√£o, onde uma pequena ilha pode ser alcan√ßada a nado ou at√© mesmo a p√© em dias de mar√© baixa. H√° um mirante do lado direito da praia, onde se descortina uma das mais belas vis√Ķes de praia de todo o Brasil. L√° de cima o que se avista s√£o montanhas cobertas de florestas, onde v√°rias cachoeiras emolduram o quadro do Para√≠so. A cachoeira do Gato, a maior de Ilha Bela se mostra em todo o seu esplendor. Foi na subida deste mirante que eu tive a infelicidade de perder a minha c√Ęmera fotogr√°fica. Perdemos umas 2 horas tentando encontr√°-la, mais foram em v√£o. J√° conformado com a perda de parte das fotos da travessia, resolvemos parar para comer um ‚ÄúPF‚ÄĚ num boteco √† beira mar. O Jo√£o j√° dava sinais de ‚Äúestropiamento‚ÄĚ. Estava assado feito um frango de padaria e seus p√©s tinham mais ferida que os p√©s dos pedintes das cidades grandes. Foi a√≠ que ele anunciou que nos abandonaria. A travessia para ele havia acabado. Chegar√° ao fim sua tentativa de pelo menos conhecer a famosa Praia da Caveira. Resolvemos ent√£o que o ajudar√≠amos a conseguir uma carona para o outro lado da ilha, j√° que em Castelhano era poss√≠vel chegar de Jipe com tra√ß√£o nas quatro rodas. Pedimos para que ele esperasse um pouco at√© que a gente voltasse de mais uma tentativa de encontrar minha maquina fotogr√°fica. Tentamos mais uma vez, mas n√£o obtivemos sucesso e quando voltamos o Jo√£o j√° havia se mandado, sem nem se despedir de n√≥s. Foi embora sozinho, acho que um pouco frustrado e desolado. Por hora acho que o cara pendurou de vez as botas de caminhada, pelo menos enquanto ele n√£o resolver esse problema que sempre o acompanhou nessa sua breve carreira de andarilho. As trilhas longas para ele deve ter terminado ali mesmo, quando ele virou as costas para Castelhanos e tomou a barrenta estrada de volta a cidade de Ilha Bela. Soubemos depois que ele caminhou por 2 horas e conseguiu uma carona.

N√≥s seguimos nosso rumo. Atravessamos toda a praia, passamos pela vilinha de pescadores e demos uma pausa onde uma placa indica com uma seta sendo para a direita para se chegar a Praia do Gato. Como j√° conhec√≠amos esta pequena praia de outras expedi√ß√Ķes √† ilha, resolvemos nem perder tempo para ir at√© La, do mesmo modo que n√£o perdemos tempo para ir a cachoeira do gato , uns 30 minutos fora da trilha. Pegamos, portanto para a esquerda da placa da praia do Gato e logo chegamos a um belo riacho, onde existe uma ponte feita de bambu. Cruzamos a ponte e passamos por uma porteira. Logo √† frente, depois de passarmos por alguns matac√īes e um riacho chegamos √† nova porteira, onde a nossa trilha vira para a esquerda, mas sem cruzar a porteira. A√≠ ela vai subindo e entra na mata e mais √† frente passa p√≥ uma enorme pedra, onde anos atr√°s encontramos vest√≠gio de uma constru√ß√£o, que usava a pedra como parte das paredes de pau- a pique. Hoje praticamente n√£o existem mais sinais da constru√ß√£o, que foi demolida por ordem do IBAMA. O caminho vai seguindo por dentro de enormes pedras e de supet√£o vira para a esquerda. ‚ÄėE uma trilha dif√≠cil de encontrar, somente olhos bem treinados para darem conta de achar o caminho, sinal que h√° muito tempo n√£o se passa por aqui, pelo menos n√£o com certa regularidade. Eu e o Dema nos revezamos na procura do caminho certo, mas mesmo em alguns momentos, nos sent√≠amos abandonados pela nossa amiga trilha. Logo algo parecido com um caminho come√ßa a nos conduzir para baixo, vejo logo que estamos chegando ao rio, pois me lembrava deste caminho h√° uns 6 anos atr√°s. Dito e feito, n√£o demorou muito e fomos apresentados ao rio das cachoeiras da Laje Preta. Estava um calor infernal e n√£o tivemos a menor duvida em parar e nos atirarmos para dentro daquela √°gua gelada e cristalina. Enquanto o Dema e a Lena se refrescavam no po√ß√£o, sai √† procura da continua√ß√£o da trilha. Lembrava-me que em 2006 tive que atravessar o rio e descer uns 100 metros pela outra margem para reencontrar a trilha. Foi o que fiz, mas n√£o encontrei trilha alguma. A vegeta√ß√£o estava muito fechada. Ent√£o voltei para junto dos meus amigos e como j√° era quase seis horas da tarde e diante de um cen√°rio t√£o espetacular, resolvemos dar por encerrado nosso dia de caminhada e montar nossa barraca √† beira do po√ß√£o. Tomei um maravilhoso banho, fizemos um janta deliciosa e fomos dormir ouvindo o barulho da floresta e do rio.

‚ÄúDa fuma√ßa do po√ßo sa√≠ram gafanhotos para a Terra, e foi-lhes dado poder, como poder que tem os escorpi√Ķes da terra. Foi-lhes ordenado que causassem dano somente aos homens. Foi ordenado que n√£o os matassem, mas que os atormentassem durante cinco meses ; o tormento que causam √© como o tormento do escorpi√£o, quando fere um homem. Naqueles dias, os homens buscar√£o a morte e n√£o a encontrar√£o; desejar√£o morrer e a morte fugir√° deles.‚ÄĚ

Foi mais uma noite bem dormida. Acordamos bem dispostos. Rapidamente desmontamos tudo, atravessamos o rio e seguimos enfrente at√© pararmos em uma gigantesca √°rvore, talvez uma suma√ļma. Deixamos a Lena na grande √°rvore e novamente sa√≠mos √† procura da trilha, que eu tinha certeza que estava a uns 100 metros descendo o rio. Atravessamos a floresta e logo encontramos o que procur√°vamos. A trilha estava muito fechada, com v√°rios galhos ca√≠dos nela, mais ainda era uma trilha. Usamos o mesmo m√©todo do morcego barulhento e logo est√°vamos de volta √†s mochilas. Batemos uma foto da grande √°rvore e seguimos. A melhor maneira de encontrar essa trilha √© atravessar o rio, passar por um leito de pedras sem √°gua e logo descer por um pequeno afluente do rio principal e ir observando do lado esquerdo para encontrar a trilha, onde deixamos agora umas marca√ß√Ķes de pl√°stico, junto a um laguinho que se forma neste pequeno riacho. Seguindo agora pela trilha correta, subimos um pouco, mas n√£o muito e meia hora depois e n√£o mais que isto j√° estamos novamente em outro rio, com alguns bons pontos para um banho. Como era de manh√£, fizemos apenas uma pausa para uma √°gua e voltamos a caminhar. A trilha vai ficando cada vez mais complicada, t√£o complicada que tive que sacar meu fac√£o da mochila para poder ir abrindo caminho. Logo chegaram os malditos taquaru√ßus, pequenos bambuzinhos que deitam sobre a trilha. Pior ainda eram os bambuzinhos espinhudos, que v√£o aos poucos minando a paci√™ncia da gente. Procur√°vamos desesperados pela continua√ß√£o da trilha, mas era quase imposs√≠vel avan√ßar com tanto obst√°culo pela frente. J√° fazia umas duas horas que est√°vamos lutando bravamente contra aquela vegeta√ß√£o quase impenetr√°vel, quando nos saltou pela frente um corredor de √°gua, que deslizava livre por baixo da vegeta√ß√£o. O Dema nos deu a ideia de seguir por ele e eu logo concordei achando que ele poderia nos levar mais pr√≥ximo ao mar e de la poder√≠amos avistar a praia que seria o nosso destino.No come√ßo correu tudo bem, era um corredor de pedra plano e seco, mas quando o corredor come√ßou a despencar, pensei logo em cair fora e apontar meu nariz para onde deveria estar a praia mais pr√≥xima. O Dema achou melhor continuarmos descendo pelo corredor desimpedido, do que nos aventurarmos floresta adentro, onde ter√≠amos que voltar a enfrentar os desgra√ßados bambus. Pensei: talvez ele esteja certo, talvez o cost√£o rochoso seja plano e ai ser√° bem f√°cil seguir por ele, v√°rias vezes j√° havia feito isso e tinha dado certo. Mas o corredor de pedra foi ficando cada vez mais √≠ngreme. √Äs vezes t√≠nhamos que escorregar parede abaixo, nos enfiarmos em gretas perigosas, nos agarrar em cip√≥s e √°rvores para perder altura. A situa√ß√£o piorou quando a corredor seco de pedra come√ßou a se transformar em uma corredeira. A pedra ficava Liza feito sab√£o.

Finalmente la pelas tr√™s horas da tarde conseguimos chegar ao mar. Est√°vamos em um cost√£o bravo, longe de tudo, sem um palmo de ch√£o plano onde pud√©ssemos montar uma barraca se fosse preciso. Enquanto a Lena cuidava de fazer um pouco de arroz para o almo√ßo, segui pelo cost√£o, saltando de pedra em pedra, escalando pared√Ķes gigantescos, me rastejando por dentro de tocas, tentando ver se conseguia avistar a praia de Eust√°quio. Eu at√© estava fazendo progresso nas minhas escaladas, mas quando cheguei a um pared√£o enorme e escorregadio, disse para mim mesmo: Que adianta eu passar por este pared√£o, se a Lena n√£o conseguir√° passar nem pelas paredes menores? A√≠ ent√£o voltei. Enquanto fazia o caminho de volta observei um pequeno barquinho pescando camar√£o que estava muito, mais muito distante mesmo de n√≥s. Ele ia e voltava, ia e voltava. Logo me veio √† cabe√ßa a ideia de fazer um aceno para ele, quem sabe ele n√£o nos dava uma carona at√© a pr√≥xima praia. Claro que ainda t√≠nhamos a op√ß√£o de voltar pelo mesmo caminho e enfrentarmos a floresta no fac√£o at√© chegarmos √† pr√≥xima praia, mas como a Lena e o Dema haviam sinalizado com a inten√ß√£o de n√£o seguir para frente. Queriam era voltar para Castelhanos se tivessem que subir aquilo tudo de novo, achei que se consegu√≠ssemos a carona poder√≠amos continuar dando a volta na ilha. Fiquei por meia hora acenando para o barquinho, mas nada. Desisti e voltei para junto da Lena e do Dema, que j√° estavam acenando para o barquinho h√° muito tempo. Para melhorar o nosso pedido de ‚Äúsocorro‚ÄĚ, resolvemos amarrar as capas de mochila na ponta dos nossos cajados. Durante mais umas 2 horas o Dema e a Lena ficaram abanando e sacudindo. Eu j√° havia desistido, j√° havia me conformado em dormir sentado no cost√£o. Ent√£o desencanei e fui pescar uns pitus no pequeno laguinho que se formava no p√© da pequena queda de √°gua. Com uma redinha, consegui pescar muitos pitus para usar como isca e tentar pegar uns peixes para o jantar. O Dema e a Lena se mantiveram firme no prop√≥sito de conseguir uma carona e n√£o desistiram em momento algum, mas vou dizer uma coisa, se n√£o fosse o meu apito de ‚Äúchamar pato‚ÄĚ em forma de corneta, eles estariam La at√© agora. Foi s√≥ eu tocar o apito, mesmo sendo humilhado pelos meus amigos, que ficaram tirando sarro da minha cara, o barquinho do pescador de camar√£o embicou para o nosso lado e foi a√≠ que sentimos que a salva√ß√£o estava a caminho. Vejam s√≥ como √©, guardei esse apito por mais de 10 anos no meu estojo de primeiros socorros, sem nunca t√™-lo usado para nada, mais no fundo eu sabia que um dia ia chegar a hora dele (chupa Dema e Lena, KKKKKKKK).

Quando o barco embicou para o nosso lado, ao inv√©s de alegria, o cen√°rio come√ßou a ficar macabro. A Lena j√° come√ßou a ficar angustiada. Eu e o Dema tent√°vamos colocar tudo nas mochilas. Mas teve uma hora que o Dema veio com um papo de deixarmos tudo para tr√°s. Coisa que rechacei no mesmo instante: ‚ÄúEu n√£o saio daqui sem minha mochila‚ÄĚ, disse eu para o Dema._‚ÄĚ Divanei, n√£o vai ter como a gente levar as mochilas para o barco, pois teremos que nadar at√© ele‚ÄĚ, disse o meu amigo. ‚ÄúEu volto pela trilha, mas n√£o deixo minha mochila aqui, n√£o h√° necessidade disso‚ÄĚ. Claro, depois notei que o meu amigo estava t√£o preocupado com sua mulher, que n√£o estava nem conseguindo raciocinar direito. Preocupado e com raz√£o porque a Lena j√° dava sinais que n√£o estava bem. Quando o barquinho se aproximou mais, o Dema pulou na √°gua e foi ao encontro dele e explicou o nosso caso. O pescador se aproximou um pouco mais, mas como notou que poderia naufragar nas pedras a qualquer momento, teve que recuar. O Dema voltou para o cost√£o, colocou o colete salva-vidas na Lena e a instrui como √© que ela deveria fazer. A sua mulher esmoreceu, empacou, entrou em choque. No passado ela tivera um grande desafeto com a √°gua e agora estava diante do seu maior pesadelo. Tinha que enfrentar o seu maior inimigo, n√£o tinha como voltar atr√°s. Era ela contra um oceano inteiro. O Dema gritava vaiiiiiii, o pescador gritava vaaaaaamos. A Lena caiu √† beira do cost√£o e desabou a chorar. O Dema deu um empurr√£ozinho, na verdade ela foi quase atirada ao mar pelo marido. Os dois ca√≠ram na √°gua e a Lena quebrou o record ol√≠mpico e mundial de nata√ß√£o em √°gua aberta e pulando de um cost√£o. Quando chegou ao barquinho, n√£o conseguiu segurar na borda, que era alta e escorregadia. Entrou em desespero e implorou para n√£o morrer. O Dema subiu e com a ajuda do pescador a puxou para dentro.

Do barco o Dema gritava algo que eu n√£o entendia por causa do barulho do mar estourando nas rochas. Achei que o meu amigo quisesse que eu pulasse no mar sem as mochilas. Gritei para ele que n√£o iria. Mas logo notei um sinal para levar as mochilas para um lugar mais abrigado, para uma pedra mais reta a uns 10 metros para a esquerda. Peguei as mochilas uma √† uma e fui escalando a pedra que estava t√£o quente que queimava as minhas m√£os. Fiz este trabalho o tempo todo, com os gritos do meu amigo e do pescador, que j√° temiam por um desastre n√°utico. Quando estava com as tr√™s mochilas prontas para serem puxadas para o barco e me preparava para tirar a roupa e as botas, vi quando o barco deu meia volta e foi se afastando do cost√£o. Fiquei com uma cara de menino abandonado, parecendo √†quelas cenas de quando as pessoas abrem o porta malas do carro e jogam foram seus animais de estima√ß√£o e v√£o embora. Na minha mente j√° estava claro o que estava acontecendo: O pescador viu que seu barco corria mesmo s√©rios perigos de naufragar nas pedras, ent√£o resolveu seguir sem mim. A Lena estava em ‚Äúcoma‚ÄĚ e o Dema precisava proteger sua fam√≠lia. Pra mim n√£o passavam de tr√™s filhos da puta, traidores (rsrsrsrssr).

Pra minha surpresa, o pescador havia dado meia volta apenas para tentar direcionar melhor o barco. Ele voltou e com ele renasceu minhas esperan√ßas novamente nos seres humanos, valeu meus camaradas! Jogaram-me a corda e eu tentava amarrar o mais r√°pido poss√≠vel todas as nossas tr√™s mochilas. Mas tive que fazer isso com os gritos desesperados do Dema e do pescador. As mochilas foram puxadas. Jogaram de novo a corda para eu me agarrar nela, mas antes eu tinha mais uma coisa a fazer, amarrar todas as botas e perneiras nela, mas antes tive que ouvir o protesto dos que estavam no barco. Consegui amarrar tudo e quando dei o √ļltimo la√ßo, o barco deu r√© e me atirou ao mar, enroscado na corda. A √°gua estava muito fria e quando o meu amigo Dema me deu a m√£o e me puxou para dentro do barco e vi que tudo havia sido salvo, exceto uma panela cheia de arroz pronto, abri um grande sorriso e disse pra mim mesmo: Cara, que aventura!

‚ÄúDepois apareceu no c√©u um grande sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo de seus p√©s, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabe√ßa. Estava gr√°vida e clamava com dores de parto e sofria tormentos para dar a luz. Foi visto ainda outro sinal no c√©u: era um grande drag√£o vermelho, que tinha sete cabe√ßas e dez pontas e sua cauda arrancou a ter√ßa parte das estrelas do c√©u.‚ÄĚ

O pescador tratou de sair dali rapidamente. Botou toda for√ßa no barquinho e enquanto eu batia o queixo de frio, a Lena estava em um canto da proa do barco, praticamente im√≥vel e s√≥ se mexia quando tinha a necessidade de colocar a cabe√ßa para fora do barco para vomitar. Esse gesto da Lena posteriormente faria a alegria de uma comunidade inteira de pescadores. O pescador nos deixou na Praia do Eust√°quio. Para desembarcarmos, pedimos ajuda de um Iate que estava ancorado no local, que nos socorreu com um pequeno barquinho a motor, que levou a Lena e nossas mochilas. Eu e o Dema agradecemos ao nosso novo amigo pescador e depois de lhe darmos um agrado, saltamos na √°gua extremamente fria e nadamos at√© a areia da praia. Praia praticamente vazia. Ao desembarcarmos, um pescador local veio ver o que havia acontecido, perguntou se hav√≠amos naufragados. Contamos lhe o acontecido e perguntamos se ele n√£o poderia ceder algum lugar para a Lena ficar, pois ela ainda estava em estado de choque e como n√≥s, parecia estar perto de uma leve hipotermia. Sergio, o pescador n√£o s√≥ ajudou a Lena, como tamb√©m nos convidou para usar a casa dele, que estava vazia, pelo tempo que precis√°ssemos. Tudo que t√≠nhamos estava molhado, desde saco de dormir, at√© a nossa comida. Como ainda havia sol, colocamos tudo para secar. Naquela noite nos alimentamos com uma enorme travessa de camar√£o empanado, doado pelos pescadores. Na casa havia camas e cobertores quentinhos. A Lena j√° estava mais calma e a situa√ß√£o de tr√°gica, pelo menos para ela, j√° come√ßava a se tornar c√īmica. A Lena j√° come√ßava a pegar o esp√≠rito da coisa, era sua primeira travessia e logo de cara j√° foi apresentada ao mundo da aventura. Fomos dormir cedo, foi um dia cheio de sensa√ß√Ķes e de emo√ß√Ķes sem limites.

‚ÄúEis como vi na vis√£o os cavalos e os que estavam montados neles: tinham coura√ßa de cor de fogo, de jacinto e de enxofre; as cabe√ßas dos cavalos eram cabe√ßas de le√Ķes e da sua boca saia fogo, fumo e enxofre. Por estas tr√™s pragas: pelo fogo, pelo fumo e pelo enxofre, que saiam de sua boca, foi morta a ter√ßa parte dos homens.‚ÄĚ

Acordamos no dia seguinte La pelas nove horas da manh√£. O dia amanheceu lindo e ensolarado. A Praia do Eust√°quio estava calma e muito transparente e as pequenas canoas ancoradas parecia flutuar. A Lena estava calma e nos acompanhou em uma pequena subida que atravessa o istmo da Ponta da Cabe√ßuda. E foi da pr√≥pria Lena que partiu o convite para continuarmos conhecendo as pr√≥ximas praias. Fiquei surpreso, j√° que eu achava que ela queria sair dali o mais r√°pido poss√≠vel depois do acontecido do dia anterior. Pegamos um fac√£o, um cantil e algumas roupas de praia e seguimos para a pr√≥xima praia, a Praia de Guanxuma. A trilha sobe uma ladeira e logo desce a pequena vila de pescadores, depois continua descendo por uma enorme escadaria de concreto, at√© a areia. Menos de 30 minutos √© o que se gasta para ir de Eust√°quio at√© Guanxuma. Guanxuma √© muito pequena, mas como Eust√°quio tem √°guas calmas e transparentes, tem um pequeno bar e alguns barcos de pesca tomam conta de parte da areia. Foi desta praia que pegamos informa√ß√£o para seguirmos para a praia da Caveira, ali√°s, o nome Caveira faz arrepiar todos os nativos, s√≥ faltam fazer o sinal da cruz. Subimos de novo pela escadaria de concreto e antes de chegarmos √† escolinha da vila, viramos √† direita e encontramos a trilha para o nosso destino. A trilha vai descendo at√© chegar a um riozinho. Atravessamos o rio e come√ßamos a subir e menos de 10 minutos depois fizemos uma pausa para o nosso caf√© da manh√£. Nossa refei√ß√£o matinal n√£o passou de uma jaca madura, onde a degustamos direto da fonte, ou seja, comemos direto no p√© e ainda guardamos a outra metade para complementar o nosso jantar. Pouco depois se descortinou √° nossa frente, ainda uns 15 minutos abaixo, um dos lugares mais fascinantes de toda Ilha Bela. O lugar onde os cai√ßaras n√£o gostam de chegar perto. Para eles, lugar macabro, de mau agouro, lugar de assombra√ß√Ķes e almas de outro mundo. Para n√≥s simplesmente a sucursal do para√≠so, que atende pelo nome de PRAIA DA CAVEIRA.

A PRAIA DA CAVEIRA, juntamente como Saco do Sombrio, √© um dos lugares mais enigm√°ticos de toda ilha. Foi na Caveira que em 1.916 vieram parar boa parte dos corpos do navio espanhol Pr√≠ncipe de Ast√ļrias que afundou entre a Ponta da Pirabura e a Ponta do Boi. A hist√≥ria conta que neste desastre n√°utico, o maior do Brasil, teriam morrido 477 pessoas, mas investiga√ß√Ķes posteriores j√° falam em mais de mil mortos por causa do enorme n√ļmero de clandestinos europeus que fugiam da primeira guerra mundial. Quando parte dos corpos chegaram √† praia da Caveira tiveram que ser enterrados na restinga acima da areia da praia. Acontece que em um belo dia, ou n√£o t√£o belo assim, uma grande mar√© alta varreu tudo que tinha pela frente, deixando todas as ossadas amostra, uma cena de horror. Desde este dia ent√£o a imagina√ß√£o f√©rtil dos nativos tratou logo de criar v√°rias lendas de assombra√ß√Ķes e at√© hoje a praia jamais recebeu algum morador e se encontra totalmente selvagem. Menos de meia hora depois de partimos de Guanxuma, adentramos a Praia da Caveira. Nenhuma alma viva, nem pescador, nenhum turista, ningu√©m, somente n√≥s tr√™s. Donos e senhores absolutos daquela famosa praia. No seu canto direito um riacho de √°gua doce e em toda a sua extens√£o muitas √°rvores e at√© uma planta√ß√£o de abacaxis selvagens. Alem das lendas macabras que afastam quase todo mundo deste lugar, ainda tem o fator mar, que √© qualhado de pedras e praticamente inviabiliza a entrada de barcos. Apaixonamos-nos logo por esse lugar e combinamos um acampamento com as crian√ßas em um futuro pr√≥ximo. Demos adeus ao nosso pequeno para√≠so selvagem e misterioso e voltamos para praia de Eust√°quio, mas no caminho demos uma parada para pegarmos nossa jaca e tamb√©m para cortar umas varas de pesca, item que seria fundamental na nossa tentativa de conseguir algo para nossa refei√ß√£o noturna.

De volta ao Eust√°quio, recebemos a promessa de uma carona na manh√£ seguinte para a Praia da Serraria, Pronto, era o que eu queria, pois esta era a √ļnica praia que eu n√£o conhecia em Ilha Bela. Em todo caso, seria mesmo na Serraria que ter√≠amos que arrumar um barco para podermos seguir nossa volta √† Ilha Bela. Com o transporte garantido para o dia seguinte, ter√≠amos agora que resolver o problema da nossa alimenta√ß√£o. J√° hav√≠amos sido muito ajudados pelos pescadores e n√£o t√≠nhamos mais cara de pedir mais nada para eles. Preparei tr√™s varas de pesca, peguei uns peda√ßos de peixe no lixo para usarmos como isca e partimos para um pequeno p√≠er abandonado junto a um antigo restaurante. N√£o demorou muito e o primeiro peixe mordeu a minha isca e eu o puxei para fora do mar, com tamanha alegria. No mesmo momento o Dema tamb√©m pegou um, de fome n√£o morrer√≠amos mais. Por umas duas horas nos dedicamos a pescaria e quando as minhas m√£o n√£o tinham mais lugar para furar, pois era sempre eu que tinha que tirar os peixes espinhentos do anzol, voltamos para a nossa casa e enquanto eu limpava os peixes o Dema e a Lema continuaram pescando em frente a nossa habita√ß√£o, at√© que um grande peixe quebrou sua vara e terminou com a brincadeira. Saldo total do trabalho coletivo: Oito peixes gra√ļdos, que viraram um grande cozido e foi o nosso jantar daquela noite.

‚ÄúO poder dos cavalos estava na sua boca e nas suas caudas, porque as suas caudas assemelhavam-se a serpentes, tinham cabe√ßas e com elas faziam o mal.‚ÄĚ.

Pouco depois das sete da manh√£, os pescadores que nos levaria para a Serraria, nos acordou. Nossa mochila j√° estava pronta e tudo que estava nela havia secado. Subimos na chata, que n√£o passa de uma canoa com motor. Os pescadores, que na verdade n√£o eram nativos e nem cai√ßaras. Um deles atendia pelo apelido de chuk , o boneco assassino. Dizia que era filho de militar e veio de uma fam√≠lia rica do Vale do Para√≠ba e tinha abandonado tudo para viver ao som do mar e da liberdade. Foi quando encontrou por acaso com o Sergio, que o acolheu e lhe deu emprego. Mas depois ficamos sabendo que ele havia passado uma temporada hospedado em uma penitenci√°ria paulista. E foi esse tipo de gente que pilotava a nossa canoa rumo √† praia da Serraria. Na verdade eram dois ‚Äúpangu√°s‚ÄĚ sem nenhuma experi√™ncia no mar e a cada barbeiragem que eles faziam, a Lena revivia o pesadelo e o sofrimento do nosso resgate no cost√£o. Uma hora depois ao nos aproximarmos da praia, os ‚Äúcoi√≥‚ÄĚ atropelaram outra canoa e quando chegamos perto da areia, esqueceram de erguer o motor , que ficou encalhado. Quando a Lena desceu do barco, veio uma onda e ela saiu catando cavaco e se esborrachou na praia. Pulei do barco para tentar ajud√°-la e a√≠ os piloteiros de merda deixaram o barco ser novamente carregado e ent√£o tomei uma pancada nas pernas, que s√≥ n√£o quebrou porque n√£o estava muito apoiado no ch√£o. Passado o sufoco foi que pudemos nos concentrar no lugar onde est√°vamos. Uma pequena praia encravada na morraria. Uma pequena vila de pescadores, uma praia de √°guas transparentes, um dos lugares mais isolados de Ilha Bela. Logo fomos apresentados a um jovem pescador e foi com ele que combinamos o frete do barquinho para nos levar para Jabaquara. Na casa do pescador, conhecemos o patriarca e a matriarca de toda a vila, j√° que quase todos s√£o parentes. Tomamos caf√© e recebemos a not√≠cia que s√≥ poder√≠amos partir depois do almo√ßo, pois os barcos estavam abarrotados de peixes e todos no vilarejo estavam retirando os peixes das redes. A vila estava em festa, parece que h√° muito tempo n√£o se pescava tanto por ali. Mal sabiam eles que a principal culpada por tanta fartura era a nossa amiga Lena. Seu v√īmito havia cevado toda a redondeza daquele peda√ßo de mar e atra√≠do peixes de todos os cantos. A Lena trouxe prosperidade √† Praia da Serraria e para retribuir tudo o que ela havia feito pelos pescadores e suas fam√≠lias, fomos convidados por uma fam√≠lia de pescadores para almo√ßar com eles. Com a barriga cheia, nos despedimos deste povo humilde e inigual√°vel, que nos recebeu como se fossemos da fam√≠lia e partimos em barquinho de pesca, que em pouco mais de uma hora e meia adentrou √† praia de Jabaquara. A Lena e nossas mochilas chegaram at√© a areia da praia em uma pequena canoa. Eu e o Dema pulamos com roupa e tudo e fomos nadando. Foi a nossa saideira. N√£o sem antes eu dar uma √ļltima espiada embaixo do mar desta linda praia. Doze anos depois eu voltara para Jabaquara, de onde partimos para a praia da Fome e a praia do Po√ßo. Sa√≠mos da praia, atravessamos o riacho e come√ßamos nossa caminhada pela estradinha de terra, onde s√≥ paramos para um delicioso caldo de cana. Duas horas depois est√°vamos do ponto de √īnibus, junto ao farol da ponta das Canas. J√° era seis horas da tarde quando pegamos a balsa que atravessa de Ilha Bela para S√£o Sebasti√£o. Na balsa o Dema e a Lena encontraram sua prima, ou foram encontrados por ela, que mora na Enseada. A prima do Dema fez a gentileza de nos convidar para um r√°pido caf√© em sua casa, j√° que o nosso √īnibus para S√£o Paulo sairia poucos minutos depois. Na balsa tamb√©m encontramos um amigo virtual, que tentou fazer a trilha de Jabaquara at√© a praia do Po√ßo e que igualmente a n√≥s teve que enfrentar mato a fac√£o e saiu da aventura mais mo√≠do que resto de on√ßa. Chegamos √† Campinas antes da meia noite e isso foi tudo o que passamos em mais essa a ventura nos confins do mundo perdido e isolado que responde pelo nome de ILHA BELA.


Sentado agora √† frente de um computador e a poucas horas do FIM DO MUNDO, tendo acabado de escrever este ‚Äúanalfab√©tico‚ÄĚ relato, fico pensando no que farei quando o dia do JU√ćZO FINAL chegar. Nestes poucos mais de 40 anos de vida, n√£o consegui descobrir que fim levarei depois que tudo acabar. N√£o sei de onde vim, nem para onde vou. Ainda n√£o tive tempo de fazer um balan√ßo de tudo que vivi. N√£o sei se ser√° melhor viver com anjinhos, onde le√£o come alface e ningu√©m faz nada e s√≥ fica sentado no gramado verdinho, onde o sol n√£o queima. Ou se √© melhor viver a emo√ß√£o de passear por lavas fumegantes e abismos sem fim. Se os Maias estiverem certos e dia 21/12 este planeta voar pelos ares √© bom estarmos acampados em uma montanha bem alta porque provavelmente vai ser o maior espet√°culo que esse mundo j√° viu e eu n√£o quero perder isso por nada.

Divanei Goes de Paula

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coment√°rios  

 
0 #6 zagagamihexu 16-08-2018 16:24
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0 #5 agoniro 16-08-2018 15:50
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0 #1 01-01-2015 09:03
Parabéns pelo relato! Voce escreve muito bem! Consegui tirar boas risadas e reviver em pensamento um pouco desta historia!

Estou a passeio em Ilhabela e espero conhecer um pouco de alguma das praias citadas!

Abraço para vc e seus amigos Dema e Lema!
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