Travessia Lapinha-Tabuleiro - Reveillon 2008/2009 - 1ª Parte

Travessia Lapinha-Tabuleiro - Reveillon 2008/2009 - 1ª Parte
Por: Delazari
« em: 04 de Janeiro de 2009, 21:51 »     

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Relato da Travessia Lapinha – Tabuleiro
29 de dezembro de 2008 a 03 de janeiro de 2009


Caros caminhantes do Clube dos Aventureiros,

   Escrevo aqui o relato da travessia entre Lapinha e Tabuleiro que um grupo de seis pessoas, Júlia e Ivan, Carol e Marlão, Flavio e eu, Fagner, fizeram no reveillon de 2008 para 2009. Está dividido em duas partes por causa do seu tamanho.

   Antes de tudo agradeço ao Clube dos Aventureiros - Hugo e demais relatores - pelo mapa, pelos relatos e pelas dicas, que foram de grande ajuda.

   Nosso plano inicial era fazer a travessia propriamente dita em 3 dias: no primeiro dia, 30 de dezembro, sairíamos da Lapinha, contornaríamos a serra do Pico do Breu e chegaríamos até a casa da dona Ana Benta; no segundo dia partiríamos da casa da dona Ana Benta e iríamos até a casa da dona Maria, onde passaríamos o reveillon; já no último dia da travessia, primeiro do ano, chegaríamos até Tabuleiro e visitaríamos a grande cachoeira. Como lerão a seguir nossos planos iniciais sofreram algumas modificações, mas no balanço geral a caminhada foi um sucesso.

   Planejamos fazer a travessia em 3 dias, embora tenhamos lido relatos de que é possível fazer em menos tempo, porque havíamos incluído subir a serra do Pico do Breu ao invés de passar pelo lajeado, que aumenta consideravelmente o percurso, e porque sabíamos que nosso ritmo não seria muito forte, em função das mochilas pesadas e do nosso preparo que não estava muito atlético. Além disso, estávamos esperando pancadas de chuva, que fatalmente forçariam modificações nos planos. Mas a caminhada em ritmo mais lento foi boa pois nos permitiu aproveitar melhor a paisagem e as pequenas delícias naturais do caminho.
  

Preparação para a caminhada.

   Planejamos passar o reveillon fazendo a travessia e nos preparamos para ficar cinco dias na estrada, entre caminhadas e paradas. Ficamos atentos às condições climáticas da região, mas mesmo a previsão que anunciava chuva e tempo nublado e instável não nos desanimou: arrumamos capas de chuva, capas de mochilas, tênis reservas, enrolamos as roupas em sacos plásticos antes de colocar na mochila e zarpamos.

   Organizamos nossa alimentação do seguinte modo: um lanche de manhã, uma refeição no final da tarde, mais os petiscos de caminhada. Para o lanche levamos pães integrais, queijo, mel, granola e chás; para as refeições arroz e macarrão integrais, lentilhas e alguns legumes como cenouras, inhame, batata doce, mais os temperos; os petiscos de caminhada cada um levou conforme seu gosto e variaram entre castanhas, amendoim, barras de cereais, bananas-passa e biscoitos. Compramos os lanches de café da manhã e a comida para as refeições juntos, e o rateio deu 20 e poucos reais para cada, incluindo os cartuchos de gás.

   Cada um levou uma garrafa de 500ml de água porque sabíamos que cruzaríamos muitos córregos e riachos onde poderíamos nos reabastecer.
   Para preparar as refeições levamos um fogareiro (R$38) e 4 cartuchos de gás (190g, Nautika ou Coleman, cerca de R$4,80 cada, 3h de fogo), mas só usamos dois.

   Para orientação levamos o mapa impresso e plastificado e bússola de visada em óleo. Levamos também alguns relatos impressos e coletamos informações no caminho.
  
1º dia: 29 de dezembro de 2008

   Saímos de BH no ônibus das 7h30 (Viação Saritur, R$22,80) e chegamos em Santana do Riacho por volta de 11h.

 
Ivan, Julia, Carol, Marlao, Flavio e Fagner

Tão logo desembarcamos procuramos um jeito de ir para Lapinha. Havia a possibilidade de fazer o trecho de cerca de 8km a pé através de uma trilha, mas optamos pelas tradicionais caminhonetes que levam até o distrito em mais ou menos 1h, por 10 pratas por pessoa, em média. Subimos 9 ao todo na carroceria da caminhonete e chegamos à Lapinha debaixo de chuva no início da tarde.

Almoçamos no restaurante da dona Valéria (R$8), tomamos umas cervejas e saímos em busca de um lugar para ficar. Carol, que é visitante freqüente da região, arranjou uma casa com dois quartos, camas de casal e chuveiro, depois da represa, ao pé da serra, por R$100/dia. O Matheus, conhecido do Marlão, que encontramos em Santana do Riacho, também ficou conosco neste primeiro dia e dividiu a casa conosco. E uma ilustríssima personagem surgiu e partilhou conosco não só a casa mas todo o trajeto até Tabuleiro: a cadelinha que chamamos de Gracinha e foi a grande heroína da história por vários motivos: pela força, pela disposição, pelas habilidades de orientação e de caça e pelo fato surpreendente de estar prestes a ter filhotes. Mas ela nos seguiu conforme sua vontade e foi uma companheira exemplar.

À tarde, após mais uma rápida pancada de chuva, fomos até as cachoeiras do córrego Lapinha, nadamos nos poços de águas avermelhadas típicas daquelas montanhas (dizem que por causa da alta concentração de iodo das rochas) e subimos até o pé do pico do Cruzeirinho, para estudar o primeiro trecho da caminhada.

Ao final da tarde voltamos para a casa, cozinhamos, conversamos e dormimos.

2º dia: 30 de dezembro de 2008

   No dia 30 começamos a travessia de fato. Deixamos a casa às 7h30 da manhã, após o café, e partimos para subir a serra do Pico do Breu. A subida que margeia pela direita as cachoeiras do córrego Lapinha, rente ao cano de água, é bastante acidentada e merece atenção. Foi cansativa, mas proporcionou uma dose agradável de adrenalina e vistas magníficas do povoado e da represa. Seguimos a trilha marcada pelo mapa, que sobe a noroeste, contorna o pico do Cruzeirinho em um "U" e desce a sudeste, entre o pico do Breu e outras elevações respeitáveis.

   A trilha está bem marcada e é auxiliada pela referência visual do pico do Cruzeirinho, que contornamos sem dificuldade. ► Duas referências que ajudam: o meio do “U” é marcado por uma porteira e o final do “U” por uma casinha de tijolos de adobe, de construção aparentemente recente, que fica voltada para as “costas” do pico do Cruzeirinho. Dali em diante a trilha se guia para sudeste.

   Nosso primeiro erro aconteceu após a casa: o tempo estava nublado e a neblina encobria os picos à nossa frente. Em função disso não tivemos contato visual com o pico do Breu, nos equivocamos ao interpretar o mapa e escolhemos uma trilha que estava bem marcada mas não era a correta, mas só viemos a saber disso algumas horas adiante.

   A trilha que escolhemos nos levou para o vale ao invés de nos conduzir para as colinas que margeiam o pico do Breu, que é onde se encontra a trilha certa. O vale é muito bonito, mas ele descende rapidamente e o acesso para o leste, em direção ao curral de pedras, fica impedido por um pequeno cânion envolvido de mata por onde passa um córrego. Quando descobrimos o erro (após visualizar o Breu) não tínhamos como retroceder na trilha (estávamos uns 3 km depois do início da colina à esquerda). Então tentamos atravessar a mata do cânion mas estava muito fechada. Tentamos mais um ou dois caminhos para tentar ir para leste por entre o alto capim encharcado, mas o risco de cobras (chegamos a ver duas) ficou muito evidente e nos fez desistir.

   Também tentamos subir as escarpas de pedra para encontrar a trilha correta, mas tanto a dificuldade da escalada quanto uma ameaça repentina de chuva nos fizeram mudar de idéia, porque estávamos entre muitas pedras que ficam bastante escorregadias quando molhadas.

   ► Então a dica: após a casa de tijolos de adobe guie-se para sudeste conforme o mapa, porém conserve-se mais à esquerda, para que suba a colina que margeará mais à frente o pico do Breu. Se descer pelo vale terá poucas opções: ou terá que escalar as escarpas íngremes à esquerda, o que não fizemos por ser perigoso e por estarmos sob ameaça de chuva, ou terá que descer a sul pelo vale até o final das montanhas e contorná-las até chegar ao lajeado de pedras, como fizemos por necessidade, o que aumenta bastante o caminho e os riscos. Ou, se preferir, retornar e tentar encontrar o caminho correto. Ou ainda, dar meia volta e retornar pra Lapinha, o que estava fora de cogitação.

   Já estava no início da noite (cerca de 19h, mas ainda claro por causa do horário de verão) quando decidimos que o melhor seria acampar num ponto mais seco e plano do vale e tentar descobrir (ou inventar) um caminho no dia seguinte. Vistoriamos atentamente o local antes de armar as barracas, porque boa parte dos perigos da região são os aracnídeos, inclusive matamos algumas aranhas e um pequeno escorpião, que poderiam ter feito estragos nos nossos planos.
   À noite ameaçou chuva, mas as nuvens muito baixas só nos incomodaram com os ventos fortes. Nessa noite cozinhamos precariamente macarrão com cenoura e fomos tentar dormir.

3º dia: 31 de dezembro de 2008

   Acordamos bem cedo envolvidos por uma densa névoa e pelo frio. A própria névoa, que vinha de norte e nordeste, nos impedia de tentar voltar pelo caminho de onde viemos: tínhamos que continuar a avançar para sudeste para tentar contornar por baixo a montanha em cujo pé calculávamos estar o Curral de Pedra. Não esquentamos água para o chá por causa da grande quantidade de vento e fizemos um lanche rápido para não atrasar o trajeto. Desarmamos acampamento e partimos às 7h30.

   Por um tempo caminhamos por uma trilha relativamente bem marcada, mas ela não nos levou a lugar algum. Então tivemos que descer a sudeste e construir nosso próprio caminho. Após estudar minuciosamente os arredores concluímos que o melhor seria subir uma colina de pedras ao sul para atingir uma outra colina de pedras e descer por ela para atingir o lajeado. Foi o que fizemos, mas com um certo custo porque o terreno era muito acidentado. Essa invenção exigiu muito cálculo, atenção e esforço, e consumiu muito tempo, mas valeu a pena pela aventura que acabou sendo e pelo bom desfecho, que nos reconduziu para o caminho correto.

   Lá embaixo, ao pé da montanha, cruzamos com um pequeno riacho e nos recompensamos com um banho num pequeno poço também de águas avermelhadas. Ao longo do caminho faríamos isso muitas outras vezes, pois as nascentes, córregos e riachos são um espetáculo constante da travessia, especialmente nesta época de chuva. Até a Gracinha se permitia refrescar de tempos em tempos com banhos nas poças. E ela se mostrou uma experiente cachorra do mato, porque vez ou outra fazia pequenas caças e voltava mascando algum bicho. Estávamos dividindo nossa comida com ela com prazer, mas víamos que ela sabia se virar muito bem sozinha quando queria.

   Poucas centenas de metros após o riacho nos deparamos com o Curral de Pedras, que é uma comprida cerca formada por fileiras de pedras. Atravessamos o riacho cujo cânion não tínhamos conseguido vencer na tarde anterior e seguimos rumo à leste, contornando a montanha. ► Observação: pelo menos visualmente nos pareceu claro que se descêssemos pela trilha correta não daríamos de cara com o Curral de Pedras como parece sugerir o mapa, mas o veríamos à nossa direita (ou seja, a oeste), quando o caminho a partir de aí seria a leste. Essa observação é importante para orientação, porque o Curral de Pedras é um marco.
   Seguimos em direção a leste/nordeste e fomos cruzando as largas pastagens que vão nos seguir dali em diante. A trilha é bem marcada, mas uma bússola auxilia bastante na orientação. Há lugares onde há várias trilhas paralelas que se desgarram e vão para diferentes lugares. Na dúvida, siga a dica do Hugo num outro relato: vá pela mais marcada. Alguns marcos são importantes: após subir a colina depois do Curral de Pedras e passar a primeira porteira (a indicada no mapa), à esquerda e mais abaixo vimos um curral que nos pareceu abandonado e que sequer é citado no mapa. Seguimos em frente. Olhando à nossa frente (à nordeste), avistamos ao longe uma casa no alto de uma colina que chegamos a pensar ser a casa da dona Ana Benta, mas que depois soubemos tratar-se de um curral que foi importante como referência. A casa da dona Ana Benta está antes deste curral, uns quinhentos metros após se atravessar o belo rio Paraúnas, com águas avermelhadas correndo sobre pedras brancas.

   Às margens do rio Paraúnas encontramos um grupo de caminhantes acampados que nos deram algumas referências, depois ainda cruzamos com dois cavaleiros que nos informaram a posição exata da casa da dona Ana Benta e nos noticiaram que ela não estava lá. Quando passamos pela placa que indica a casa da dona Ana Benta já passava de meio-dia e continuamos nosso caminho em direção à casa da dona Ana Maria.

   Chegamos àquele curral que havíamos avistado lá atrás, no alto de uma colina. Conforme as dicas dos cavaleiros, atravessamos a porteira (que não está indicada no mapa) e descemos à direita entre a cerca e o capinzal até cruzar o córrego, após o qual viramos à esquerda para encontrar a trilha bem marcada que corre próximo à encosta da escarpa. E às margens do córrego, sob sol intenso, almoçamos para repor as energias.

   A seguir a trilha continuou tranqüila. O próximo marco foi a serra escarpada à direita. A trilha faz uma espécie de “S”, sendo que a primeira parte sobe a escarpa íngreme pela direita. Após subir, chegamos a um planalto sobre o qual passa a estrada. Logo após a estrada, cruzamos a porteira e continuamos pela trilha que está bem clara.

   Achar a segunda e a terceira porteira indicadas no mapa foi fácil e rápido. Depois da terceira cruzamos uma pinguela de troncos de árvore (tivemos que carregar a Gracinha neste trecho, o único que ela não atravessou melhor do que nós) e enfrentamos um pântano úmido e perigoso, por causa de cobras e aranhas. Após o longo charco foi possível avistar ao longe a casa da dona Maria – ou melhor, as bananeiras e os eucaliptos que circundam sua casa, formando uma ilha em meio à vegetação rasteira. Eram sete horas quanto atingimos a porteira e fomos recebidos pela dona Maria e por duas de suas netas, que passavam férias em seu sítio.

   Acampamos uns duzentos metros após a casa, num topo de montanha que é normalmente utilizado pelos caminhantes que fazem a travessia. A paisagens desde o acampamento é maravilhosa: é possível avistar Tabuleiro e ao mais ao fundo Conceição do Mato Dentro. Na casa da dona Maria tomamos banho de água aquecida a serpentina e ela nos permitiu usar o seu fogão de lenha para preparar nossa comida. Ao pé do fogão conversamos muito agradavelmente com a dona Maria e com suas netas, e ela nos contou dos caminhantes que por lá passam com freqüência e dos seus mais de 40 anos de vida naquela casa.

   Como era noite de reveillon, havíamos levado umas garrafas de vinho para celebrar a virada, mas fomos surpreendidos às 23h por uma tempestade de verão que nos obrigou a entrar o ano dentro das barracas, ajudando as hastes a se segurarem no vento forte e molhados pelas gotas que inevitavelmente passavam pela costura do forro. A chuva só cessou às 0h20, e ainda trabalhamos um tempo da madrugada para secar algumas coisas para poder dormir a primeira madrugada do ano. Mas nem esse perrengue nos deixou abatidos, e nos desejamos feliz ano novo aos gritos para vencer o barulho do sopro do vento. Foi pitoresco, exótico e divertido. Enfim, muito bom.
  
[CONTINUA NA 2ª PARTE]
 

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