Rarefação do ar provoca destruição de neurônios



Mesmo acostumados a escalar grandes altitudes, alpinistas podem sofrer danos neurais devido à hipoxia.

No final de 1890, em um laboratório situado no topo de uma montanha de 4.550 metros, na cordilheira Monta Rosa, nos Alpes italianos, o fisiologista Ângelo Mosso fez as primeiras observações diretas dos efeitos de altitudes elevadas sobre o cérebro humano: a olho nu e com um aparelho projetado por ele, Mosso observou as mudanças nas protuberâncias e pulsações no cérebro parcialmente exposto, de um homem que sofrera um acidente.

Recentemente um experimento semelhante foi realizado utilizando imageamento cerebral não-invasivo. Para aqueles que adoram escalar montanhas os resultados não são animadores. Em Saragoça, Espanha, o neurologista Nicolas Fayed e colegas realizaram ressonâncias magnéticas do cérebro em 35 alpinistas - 12 profissionais e 23 amadores - que haviam voltado de expedições em grandes altitudes, inclusive 13 já tinham escalado o Everest. Foram constatados danos cerebrais praticamente em todos os que haviam escalado o Everest, mas também em muitos alpinistas de menores altitudes que retornaram sem saber que tinham sofrido lesões cerebrais. Parece que alpinistas que escalam montanhas elevadas, sejam praticantes eventuais ou profissionais, ao retornar de escaladas de montanhas altas apresentam alterações cerebrais em relação às condições anteriores.

O que muda no cérebro do alpinista?
Embora a tolerância de cada pessoa à hipoxia - falta de oxigênio - possa variar de acordo com as diferenças fisiológicas inatas ou de condicionamento físico, ninguém escapa ileso. Os efeitos podem ser agudos, afetando o indivíduo apenas quando em condições de baixas taxas de oxigênio, ou - como foi descoberto no estudo de Fayed - de longa duração.

A primeira fase é muito apropriadamente chamada de doença aguda de montanha. Pode provocar dor de cabeça, insônia, tontura, fadiga, náusea e vômito. A fase seguinte, mais séria, provoca o edema cerebral de grande altitude, também conhecido como Hace (em inglês), um edema cerebral potencialmente fatal.
A falta de oxigênio pode danificar diretamente os neurônios. Além disso, em grandes altitudes as paredes dos vasos capilares começam a vazar, e o líquido que escoa pode produzir inchaços perigosos, pressionando o cérebro de dentro para fora contra a parede rígida do crânio. Algumas vezes os nervos ópticos incham de tal maneira que formam uma bolsa no fundo do olho, alterando a visão e provocando hemorragias na retina. Enquanto isso o sangue, concentrado devido à desidratação e mais espesso com o aumento de células vermelhas, coagula com mais facilidade. Esta coagulação, juntamente com a hemorragia proveniente do estreitamento dos vasos capilares, pode levar a um derrame. Um alpinista com Hace pode sofrer de amnésia, confusão, delírios, perturbação emocional, alterações de personalidade e perda de consciência.

Os casos graves de doença aguda de grandes altitudes associados aos danos cerebrais são conhecidos há bastante tempo. Mas um detalhe curioso do estudo de Fayed é que mesmo quando os alpinistas não mostravam sinais de doença aguda, as tomografias ainda revelavam danos cerebrais.

Resultados obtidos com alpinistas que escalaram o Everest foram os mais impressionantes. Dos 13 alpinistas, três haviam atingido um pico de 8.848 metros, três alcançaram 8.100 metros, e sete chegaram ao topo em alturas entre 6.500 e 7.500 metros. A expedição não teve maiores contratempos e nenhum dos 12 alpinistas profissionais evidenciou quaisquer sinais óbvios de doença de grande altitude; o único caso agudo da doença de montanha não foi grave e ocorreu em um alpinista amador da expedição.

Ainda assim, dos 13 alpinistas, apenas o profissional teve, ao retornar, um diagnóstico normal por imageamento de cérebro. As tomografias dos outros 12 alpinistas apresentaram atrofia cortical ou alargamento dos espaços VR (Virchow-Robin). Esses espaços envolvem os vasos sangüíneos que drenam o líquido cerebral e se comunicam com o sistema linfático; o alargamento desses espaços é observado em idosos, mas raramente em jovens. O cérebro do alpinista amador também sofreu lesões subcorticais nos lobos frontais.

Até que altura podemos subir?
Sem dúvida, o Everest é um caso extremo. Fayed e colegas também estudaram um grupo de oito pessoas que tentaram escalar o Aconcágua, um pico de 6.962 metros nos Andes argentinos. Dois alpinistas alcançaram o pico, cinco chegaram a altitudes entre 6 mil e 6.400 metros, e um chegou a 5.500 metros. No entanto, três deles tiveram doença aguda de montanha, e dois apresentaram sintomas de edema cerebral - provavelmente por terem partido de altitudes menores subiram mais rápido que os alpinistas do Everest.

Os oito alpinistas do Aconcágua mostraram atrofia cortical nos exames de ressonância magnética. Sete apresentaram alargamento dos espaços VR, e quatro mostraram inúmeras lesões subcorticais. Alguns nem precisaram de tomografia para saber que tinham sofrido lesões. Um deles sofreu de afasia - problemas relacionados com a fala - da qual se recuperou seis meses depois. Dois se queixaram de perda temporária de memória ao retornar e três outros lutaram contra a bradipsiquia - lentidão na atividade mental.
O corpo tem uma resistência extraordinária, mas será que o cérebro se recupera dessas seqüelas do montanhismo? Para responder a essa pergunta, os pesquisadores re-examinaram os mesmos alpinistas três anos depois da expedição, sem a interferência de qualquer outra experiência de alpinismo de grande altitude. Em todos os casos, as lesões ainda eram visíveis no segundo conjunto de imagens.

O Aconcágua ainda é uma das montanhas mais altas do mundo. O Mont Blanc nos Alpes do oeste europeu tem menor altitude. Seu pico de 4.810 metros é escalado todos os anos por milhares de alpinistas que provavelmente não desejam sofrer danos cerebrais. No entanto, os pesquisadores descobriram que dos sete alpinistas que chegaram ao pico do Mont Blanc, dois retornaram com alargamento nos espaços VR do cérebro.

Qual seria a causa?
O estudo sugere que a exposição crônica a grandes altitudes não é um pré-requisito para se sofrer danos irreversíveis no cérebro. Na realidade, os amadores parecem estar sujeitos a um risco maior, porque eles estão mais propensos a sofrer doença aguda de montanha ou edema cerebral de grandes altitudes. Alpinistas mais experientes, e conseqüentemente mais bem preparados, no entanto, parecem pagar um preço cada vez maior. Quando comparados com alpinistas amadores, os profissionais, de modo geral apresentaram maior atrofia cortical. Apesar de terem aparência física mais forte, apresentaram maiores danos cerebrais.

Escalar montanhas é uma atividade que tem se tornado cada vez mais popular - e por bons motivos. Proporciona experiências inesquecíveis, perfeita comunhão com a natureza, amizades que alimentam o espírito, experiências intensas e compensadoras que superam os limites da rotina. Envolvidos pela aventura e desafios que desenvolvem coragem, resistência e perseverança, os alpinistas são transportados para a paisagem selvagem das montanhas - embora esteja desaparecendo.

Muitas pessoas acreditam que o principal atrativo está na insuperável vontade de ir mais alto - “Simplesmente por estar ali” e aproveitar o momento.

Cerca de 5 mil alpinistas escalam os picos do Himalaia todos os anos. Outros milhares escalam picos nos Alpes e nos Andes. Muitas dessas pessoas despendem quantias enormes para montar expedições ou seguirem um guia até o topo das montanhas. Está cada vez mais claro que gozar desse privilégio tem um custo alto, que não é pago com o suor do rosto, mas com tecido cerebral.

Por: R. Douglas Fields

R. Douglas Fields Realizou seu mestrado no Moss Landing Marine Labs e seu doutorado em biologia oceanográfica no Scripps Institution of Oceanography. É neurobiólogo do National Institutes of Health. Em seus estudos sobre tubarões, ele conta com a colaboração da esposa, Melanie Fields, professora de biologia do ensino médio. Fora do trabalho, Fields passa seu tempo escalando, mergulhando e montando guitarras. Este é seu terceiro artigo para a SCIENTIFIC AMERICAN.

 

 

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