21 dias no PNSO

Uma Experiencia e tanto na minha vida!!

Julho de 1994

Eu e mais 3 amigos da adolescência, moradores da Rua Mosela em Petrópolis adorávamos subir o Morro Açu para curtirmos aquele friozinho de inverno. Nas férias escolares de Julho de 1994, decidimos subir o PNSO até o Açu e ficar por lá no final de semana, para curtir uma onda de frio que acabara de chegar na região. O tempo ajudou muito e me lembro muito bem na antiga rodoviária de Petrópolis que o termômetro marcava 9°C as 21h da quarta feira.

Começamos a subir a montanha a noite com muita calma por causa do peso e, curtindo de verdade o passeio, parando em pontos estratégicos como o Queijo, Ájax e no alto da Isabeloca. Quando o Açu apontou no horizonte, os raios solares já iluminavam a atmosfera e as tonalidades róseas já tomavam conta do céu. Chegamos nos castelos, vimos um lindo nascer do Sol e agradecemos muito o calor que nos oferecia após uma gelada madrugada na trilha. Montamos acampamento, tomamos um reforçado café da manhã e fizemos um reconhecimento no local para ver se estava tudo em ordem.

Não havia mais nenhum grupo ou barraca no Açu, estávamos sozinhos a princípio no final de semana. Dormimos direto até o horário do Por do Sol para recuperar a noite acordada na trilha. Um espetáculo da natureza foi dado pra gente e a noite, fizemos aquela janta. Um dos componentes do grupo, levou um cantil cheio de conhaque para segurar o frio e misturar com o chocolate quente, o famoso choconhaque. Atualmente, com a minha consciência, não levo mais nenhum tipo de bebida alcoólica para as montanhas mas, na época de jovem quem não gostava de se aquecer com um golinho de conhaque? Foi ai que aconteceu o fato principal da história: Das quatro pessoas que estavam lá, eu era o único que não era de “família”, todos os outros eram primos em comum e, um deles, por força do destino, bebeu demais e começou a passar mal.

Foram horas difíceis de presenciar tanto enjôo, por causa da soma de muita comida, conhaque e altitude. Acredito que a baixa da imunidade provocada pela falta de sono regular na ultima noite possa ter contribuído também.

Resultado: No dia seguinte, o rapaz de 15 anos estava muito fraco, debilitado e não conseguia comer nada, pois “o que entrava, saia”. Decidiu-se então voltar para a cidade e dar suporte para o garoto, mas, estávamos com excesso de carga porque a princípio subimos com equipamento para 4 dias na montanha e, sem economia de peso.  Dei uma idéia: Eu ficaria no Açu com a minha barraca enquanto eles desceriam com o rapaz sem mochila, para facilitar a remoção dele da montanha, já que o lado do Açu não tinha guarita nem estrutura alguma de parque.

Quando vi o que eles deixariam comigo no acampamento, tomei um susto!- 4 rolos de filmes 36 poses;- Pilhas alcalinas ( muitas )- Miojo, chocolates, leite em pó, combustível para o fogareiro para muitos dias;A partir disso, calculei por alto quanto tempo eu poderia ficar na montanha e, acredite se quiser... naquele tempo, não existia a facilidade da comunicação do celular. Escrevi um bilhete para a minha mãe e descrevi o ocorrido. Avisei que ficaria por 2 semanas no Açu para mapear e descobrir o local e, que após alguns dias, a galera voltaria para me ajudar a descer com as coisas, pois na minha mochila não cabia o que foi deixado lá em cima. 

Por fim, os dias foram se passando, o frio aumentando e vi pessoas chegando, pessoas voltando, pessoas atravessando para Teresópolis e muitas mudanças climáticas. Mas estava decidido a explorar o local e não ter pressa de ir embora.

Quando completou 14 dias na montanha, o tempo estava horrível, completamente nublado e chuvoso e eu sabia que a galera não ia subir para me encontrar. Já estava consciente de que ficaria mais algum tempo por lá e estava tranqüilo, porque ainda tinha muito mantimento para sobreviver no alto da montanha. Tomava banho diariamente com panelas e garrafas, pois não tinha muita oferta de água neste período do ano, mesmo com o tempo nublado e chuvoso. Cada grupo que descia para Petrópolis, eu dava o numero do telefone da minha casa e pedia para avisar a minha família que estava tudo bem comigo.

Nesta época, apesar do Morro Açu não ter estrutura de Parque Nacional, com a entrada sendo por cima de um arame farpado e nada mais, as coisas eram mais conservadas. Existia água potável no Açu e uma bela biquinha, que SEMPRE tinha água corrente, mesmo na seca. A água era meio amarelada por causa da matéria orgânica do terreno mas, era limpíssima. Quando estava no 19º dia no Morro Açu, meus amigos voltaram com mochilas vazias e mais mantimentos para passar o final de semana comigo e me acompanhar no retorno pra casa. No total, foram 21 dias no Açu. Neste período nas montanhas, fiz duas vezes a trilha até a Pedra do Sino, vasculhei cada cantinho do planalto do Chapadão, Fui aos Portais de Hercules, caminhei até o Ájax e descobri minas de água escondidas no planalto, na qual não conto e nem me lembro mais, justamente para que o povo de hoje não destrua como fizeram com a nascente do Açu. Foi uma bela história e uma experiência magnífica para um jovem. Descobri que podia me cuidar sozinho e aprendi a meditar e respeitar mais a Natureza... aprendi a ter paciência, ter otimismo e fiquei um bom tempo sem saber do que acontecia no mundo, um verdadeiro isolamento por alguns dias.

Marcelo Brasil Guimarães
Professor de Educação Física e Empresário

 

comentários  

 
0 #6 05-03-2012 23:12
Olá Marcelo,

Obrigado por compartilhar conosco sua aventura, subi uma única vez ao Açu com amigos, e digo-lhe que foi uma das aventuras mais marcantes da minha vida.

Grande Abraço!
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0 #5 05-03-2012 12:36
Nobre companheiro... li sua história e relembrei uma época em que subia o Açu acompanhado de saudosos amigos... adoro essa montanha! Obrigado por compartilhar.
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0 #4 Marcelo Brasil Guimarães 04-08-2011 14:05
Citação:
Olá Marcelo,
Uauu.. que história legal!!
Eu gostei em especial por relatar com detalhes sobre um lugar que quero muito conhecer, o Morro do Açu. E também por perceber que você morou na Mosela, bairro onde moro!
Eu morro de vontade de subir o Açu, e mesmo com tecnologias atualmente, que possibilitam a comunicação, não sei se ficaria tanto tempo longe de casa. Acredito que vc amadureceu muito nesses 21 dias, afinal teve muito tempo em contato com a natureza.
Gostei muito e espero também me aventurar nesse belo cenário petropolitano um dia.
\o/


Olá!
Foi uma das melhores experiências de minha vida!!
Jamais esquecerei!!
abraços
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+1 #3 10-06-2011 16:00
Olá Marcelo,
Uauu.. que história legal!!
Eu gostei em especial por relatar com detalhes sobre um lugar que quero muito conhecer, o Morro do Açu. E também por perceber que você morou na Mosela, bairro onde moro!
Eu morro de vontade de subir o Açu, e mesmo com tecnologias atualmente, que possibilitam a comunicação, não sei se ficaria tanto tempo longe de casa. Acredito que vc amadureceu muito nesses 21 dias, afinal teve muito tempo em contato com a natureza.
Gostei muito e espero também me aventurar nesse belo cenário petropolitano um dia.
\o/
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+2 #2 Marcelo Brasil Guimarães 24-02-2011 09:08
Oi Caio!!

O isolamento na montanha nos faz pensar demais em como é bom ter amigos e saúde para viver. Se não tívermos vida social, o isolamento seria todo dia!!
Me senti muito bem todos os dias e estava louco de vontade de ficar e voltar ao mesmo tempo - sensação estranha!!
Hoje, pelos preços cobrados pelo PNSO, fica quase impossível de fazer isso novamente, sem contar que o trabalho me impede de fazer uma aventura deste porte novamente.
Quando voltei à cidade, parecia que todos me olhavam de uma forma diferente, que eu era estranho. Na verdade, com uma barba mal feita e um mochilçao nas costas, parecia mesmo que eu era um estranho...
grande abraço!!!

Marcelo Brasil
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+2 #1 Caio Basili 11-11-2010 13:55
Marcelo, muito bom relato. Tenho vontade de fazer o mesmo, mas não vou ter a mesma sorte de ter "carregadores", mas hoje, temos a vantagem de ter comida de alta tecnologia e mais leve. Eu queria que contasse mais sobre o isolamento, o que o isolamento causa na pessoa. Quando voltou a civilização, o que sentiu? Grande abraço.
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