Carta do Almy Ulisséa ao amigo Ivo - 30 anos da Agulha do Diabo


Era um 29 de junho, o ano era 41... Muito antes dessa conquista, numa daquelas arrancadas pelas florestas e montanhas, quando eu ia em busca..., em busca..., em busca... Mas hoje, nos meus 68 anos, eu busco, mas agora busco entrar em harmonia com o Mundo que me cerca. Companheiros, velhos e novos companheiros, aceitem um conselho amigo: - Não percam um momento!

A carta que está transcrita abaixo foi escrita em 1971 por Almy Ulisséa para seu amigo amigo Antônio Ivo Pereira, relembrando os 30 anos da conquista da Agulha do Diabo, da qual ele (Almy) foi um dos autores. Almy Ulisséa foi um dos maiores nomes da escalada brasileira entre meados dos anos 30 e meados dos anos 50, tendo feito excursões até bem depois disto. Além da Agulha do Diabo, ele conquistou a Face Leste do Dedo de Deus de forma futurista, sem um grampo sequer, em 1944. Sua extraordinária lista de conquistas inclui, ainda, o Cabeça de Peixe (1935), o Morro dos Cabritos no Vale dos Frades (1940), a Coroa do Frade (antecume, em 1940), o Pico Grande de Magé (1941), a Agulha das Duas Vertentes (1945), o Frade de Angra (1948) e o Pico das Três Orelhas (Mangaratiba, em 1951), dentre outras.

Amigo Ivo

Sempre que decorre mais um ano da Conquista da Agulha, dessa Agulha que tem nome de Diabo por sua causa (pergunte ao Gunther que ele confirmará) vocês querem comemorar.

Mas agora são 30 anos, meu velho amigo! E por isso eu quero dizer o quanto agradeço ao CEB, pelo muito que representou em minha vida.

Talvez eu nunca tenha te falado, naquelas nossas confidências na montanha. Tu te lembras?

Era um 29 de junho, o ano era 41... Trinta anos, hein!

Como é bom recordar o que passou!

Muito antes dessa conquista, numa daquelas arrancadas pelas florestas e montanhas, quando eu ia em busca..., em busca..., em busca... Seria de glória para meu Clube? Ou alimentando uma vaidadezinha que todo moço tem? Talvez...

Mas hoje, nos meus 68 anos, eu busco, mas agora busco entrar em harmonia com o Mundo que me cerca. Você que é católico, teosofista, espiritualista, dirá que é DEUS! Você protestante, concordará.

Olhe, amigo e companheiro, hoje eu sei que era mesmo a "Ele" e por "Ele", que saí procurando. Mas veja, a minha busca não era diferente da sua.

Meus cabelos brancos dizem que era o mesmo amor que me levava, então, montanha acima, mochila às costas, olhar atento, sem perder sequer uma nuvem, ou um nevoeiro, um fio d'água, uma gotinha de orvalho numa folha... oh! maravilhas!

Será porque eu estou velho agora, é que me ajoelho e agradeço aos Céus, de os meus olhos se terem extasiado com tanta beleza?

Companheiros, velhos e novos companheiros, aceitem um conselho amigo: - Não percam um momento! Fujam, fujam sempre que puderem, desse amontoado de cimento, que quase não nos deixa ver o azul do céu.

Fujam para as montanhas! Amem esses picos, gozem esses momentos felizes... Deixem que seus olhares se percam no infinito!

Quando atravessarem um riacho de claras águas, deitem-se ao chão, e sorvam gole a gole, essa dádiva da Natureza.

Deliciem-se com o vento... Sim, com o vento!

Observem como ele faz as nuvens voarem céleres pelo céu. As mil formas que elas tomam, agitadas por ele. É ele ainda que balança as árvores, fazendo com que, cada uma apresente bailado diferente. Reparem bem que algumas cantam... Cantam mesmo, não é mentira, quando, cheias de amor, soltam o pólen na divina faina da procriação.

E o sol nas montanhas? Que espetáculo criado pelo homem, pode comparar-se a um amanhecer ou um crepúsculo divisado a mais de mil metros de altura?

Oh! rapazes, não percam, não percam!

Fujam, fujam, procurem o aconchego da Mãe-Natureza, porque vocês verão, quando chegarem à minha idade, quando as pernas não os deixarem correr morro acima, quando reclamarem o pouco peso que colocamos às costas, que não sentirão o frio da solidão. Verão que o mesmo amor antigo que me levou ao encontro da Mãe-Natureza, cresceu, cresceu muito! Que vocês estão acompanhados das peripécias de cada uma das excursões que fizerem.

Com que delícia vocês lembrarão o farnel repartido, a ajuda que foi dada ao companheiro, a cantoria desafinada...

Volto a dizer-lhes: 30 anos passaram, mas eu me lembro, com muita alegria, mesmo com amor, de cada investida que fizemos para galgar aquele penhasco; o momento final da conquista, o abraço emocionado, aquele sorriso do Toselli... Mas no fundo, no fundo mesmo, o momento exato em que descortinei toda a serra, cada pico, o rio, soberbo mesmo, aquele infinito, e a suprema harmonia de todas as coisas juntas que nos cercavam.

Rapazes, não percam horas iguais a essas, horas preciosas, que a vida passa...

Olhem só: 30 anos se passaram, hein!

Ass. Almy Ulisséa


Carta enviada em 1971 a Antonio Ivo Pereira por ocasião do 30º ano da conquista da Agulha do Diabo.

Texto publicado no Boletim nº 323 - julho de 1981, do Centro Excursionista Brasileiro (CEB).

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