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Travessia: Bananal-SP x Pedra do Frade x Mambucaba-RJ

Março/2004 : Esta foi a primeira vez que eu a vi . Ou a primeira vez que eu realmente prestei atenção nela. Foi amor à primeira vista. Estava em Parati-Mirim-RJ, tentando desesperadamente conseguir um barco que me atravessasse o Saco do Mamanguá, onde eu iria dar início a grande Travessia da Ponta da Joatinga. A Pedra do Frade, vista daquele ponto, enfeitiça qualquer aventureiro apaixonado por montanha, e comigo não foi diferente. Jurei um dia trepar(escalar,rsrsrsrsr) naquela pedra, mesmo sem saber sequer se trilha existia até lá. E então deixei o tempo passar..............

Maio/2009 : O dia amanhece extremamente chuvoso. Nossa barraca est√° toda inundada. Nada ficou seco. Foi uma noite terr√≠vel. Montamos nossa casa de mato bem encima de uma po√ßa de √°gua, alias era o √ļnico lugar com meio metro de terreno plano que achamos. Para chegarmos at√© aqui tivemos que atravessar quil√īmetros de lama√ßais a nado. Bem que avisaram pra gente n√£o vir, mas eu e meu primo fomos teimosos feito mula. Mas tamb√©m, v√° falar pra um aventureiro que ele n√£o consegue chegar sem um guia em algum lugar. Essa gente n√£o costuma levar desaforo pra casa, n√£o fogem de um desafio por nada. Confesso, quebramos a cara e tivemos que enfiar o rabo entre as pernas e sair correndo, feito crian√ßinhas para o colo quentinho da mam√£e. Mas n√£o h√° de ser nada, da pr√≥xima vez, esta maldita Pedra do Frade me paga. Ela n√£o perde por esperar...............

Outubro/2010: O dia da minha vingan√ßa estava marcado. Feriado de finados. Mandei e-mail para uma dezena de amigos, convidando-os para a empreitada. Alguns, simplesmente ignoraram, como sempre. Outros fugiram as pressas pra Col√īmbia. Outros iriam levar a v√≥ na muscula√ß√£o, a m√£e pra tomar vacina anti-r√°bica, o pai pra fazer o Papa Nicolau e por a√≠ vai. Arrumei minha mochila, decidido a seguir sozinho. Sabia que a trilha era dif√≠cil e complicada. Todos os artigos da NET diziam que n√£o dava pra fazer sem guia e sem GPS e quem fosse por conta pr√≥pria ia se ferrar e ‚Äútralal√° e tralal√°‚ÄĚ.N√£o tava nem a√≠, iria s√≥ e pronto.

Dois dias antes da viagem, aparece na minha casa um dos meus amigos de inf√Ęncia, que h√° uma d√©cada, tinha morrido para as aventuras, (quem ser√° que libertou ele da tumba?, rsrsrsr). Seu nome: Waldemir, ou professor Waldemir, formado em matem√°tica pela Universidade de Campinas (Unicamp). Mas aqui chamarei apenas de Dema, que √© como eu sempre o chamei, desde os remotos tempos de escola. O Dema foi sempre companheir√£o de altas aventuras e v√°rios perrengues e caminhadas, mas nos √ļltimos dez anos esteve congelado. Veio at√© mim, buscar ajuda para um problema de sa√ļde que atacam quase todos nestes tempos modernos. Estava sofrendo de stress cr√īnico. Professor de escola p√ļblica, tamb√©m foi vitima do descaso e do abandono da educa√ß√£o pelos caras da‚ÄĚestrela vermelha‚ÄĚe tamb√©m do ‚Äúp√°ssaro bicudo‚ÄĚ.

Embarcamos na rodovi√°ria de Campinas, rumo a S√£o Paulo e de l√°, para Aparecida. De Aparecida para Cruzeiro, √ļltima cidade do estado de S√£o Paulo, para descobrir que n√£o tinha mais √īnibus para Bananal e para nenhum outro lugar. O jeito foi dormir na rodovi√°ria mesmo e esperar at√© as seis da manha, quando partiria um √īnibus para Barra Mansa, cidade fluminense que fica a 13 km de Bananal - SP. Finalmente √†s 10 horas da manha saltamos na min√ļscula rodovi√°ria de Bananal. Claro, ter√≠amos evitado todo este sofrimento se tiv√©ssemos achado passagem de S√£o Paulo at√© aqui, mas com o feriado prolongado isso n√£o foi poss√≠vel.

Bananal √© uma cidade muito pequena, mas muito charmosa. Exibe casar√Ķes antigos, heran√ßa dos tempos de fartura e riqueza, proporcionados pelo caf√©. Atravessamos o centrinho da cidade, cruzando sua rua principal, passando pela mais antiga farm√°cia do Brasil. Seguindo as placa Serra da Boc√Ęina, viramos a esquerda e interceptamos a rodovia SP-247, bem no seu in√≠cio, com a inconfund√≠vel placa km-0.

O nosso objetivo era alcan√ßar o povoado do Sert√£o da Boc√Ęina, tamb√©m conhecido como Brastel. Para l√° existe dois √īnibus durante todo o dia, um parte de manha √°s 06h30min e o outro s√≥ √†s 14h30min. Tentamos arrumar uma carona no km-0, mas como disseram os nativos do lugar: ‚Äú Carona num arruma n√£o mo√ßo , essa gente que passa na estrada s√£o de cidade grande e num tem costume de d√° carona‚ÄĚ.Ficamos mais perdidos que cachorro que cai do caminh√£o de mudan√ßa. At√© o final da estrada s√£o mais de 35 km e n√£o daria para seguir a p√©. Sem saber o que fazer fomos seguindo nossa marcha e tentando ver se algum carro se comovia e parava para nos dar uma carona .Seguimos enfrente, um p√© na frente do outro, j√° conformados com nossa situa√ß√£o, resolvemos andar at√© de tarde e esper√°vamos que o tal √īnibus parasse quando d√©ssemos sinal. Durante a longa caminhada √≠amos conversando sobre a vida, com papos ultra, mega revolucion√°rios, esculhambando com as religi√Ķes, com os partidos pol√≠ticos, com o capitalismo exacerbado, com todas as a√ß√Ķes racistas e preconceituosas e todas as outras formas de domina√ß√£o, aliena√ß√£o e explora√ß√£o humana. Quer√≠amos reformar o mundo. Mas pra falar a verdade, quer√≠amos mesmo era botar fogo em tudo e come√ßar de novo. Se a conversa em si n√£o levaria a lugar nenhum, pelo menos servia para fazer passar o tempo e nos fazer esquecer da longa jornada morro acima. ‚Äú‚Äú√Äs vezes ped√≠amos carona para algum carro que esporadicamente passava por ali, mas as desculpas eram sempre as mesmas: ‚ÄúVou entrar a esquerda‚ÄĚ,‚ÄĚ Vou entrar a direita‚ÄĚ . Provavelmente deveria haver alguma passagem secreta naquelas montanhas, pois n√£o v√≠amos entrada para lugar algum.

Mais de hora depois da caminhada come√ßar, dei sinal para uma caminhonete de cabine dupla e ca√ßamba, acho que era uma L-200. O cara parou e mandou que n√≥s sub√≠ssemos. Fizemos festa e abrimos um sorriso de jacar√©. O 4x4 foi subindo pela estrada horr√≠vel, cheia de buracos e subidas intermin√°veis , at√© que n√£o ag√ľentou o tranco e ferveu, explodindo √°gua para todos os lados. Descemos j√° achando que nossa carona tinha acabado no meio do caminho, faltando uns 20 km para nosso destino. Os ocupantes da caminhonete desceram e a√≠ ficamos sabendo de quem se tratava. Era um padre e seus ajudantes, que estavam seguindo para realizar um casamento no Povoado do On√ßa, vilarejo uma hora depois do povoado Brastel. Demos a √°gua do nosso cantil para abastecer o radiador do carro e fomos tentar achar mais em uma curva morro acima. Resolvido o problema, seguimos at√© o alto da serra, onde o padre nos deixou e seguiu seu destino para cerim√īnia do cas√≥rio.

J√° era quase meio dia e tratamos logo de apertar o passo. Passamos pelo restaurante Chez Bruna, viramos a direita na bifurca√ß√£o seguinte e seguimos caminhando pela √°rea rural at√© finalmente conseguirmos avistar a impon√™ncia da Pedra do Frade. Quando passei por aqui da outra vez, n√£o vi coisa alguma por causa do mau tempo. Ela √© realmente gigantesca, linda e nos chamava para uma grande aventura e n√≥s t√≠nhamos aceitado o desafio, n√£o era hora de recuar, seguimos enfrente o mais r√°pido que pudemos, at√© que finalmente chegamos a pousada/camping do Brejal, onde fomos muito bem recebidos pelo Carlinhos . Batemos um papo, tomamos um √ļltimo refrigerante gelado e √†s 13: 00 partimos para a trilha.

Partindo, portanto da pousada do Brejal, ainda pela estradinha de terra (SP-247), logo à frente encontramos uma bifurcação, mas o caminho correto é mesmo para a esquerda, fazendo a curva. Mais a frente,passamos pela Fazenda Seda Moderna e logo a esquerda em uma pequena colina, aparecerá um cruzeiro, mas de tão medíocre, quase imperceptível. Mais alguns metros de caminhada, entramos de vez no estado do Rio de Janeiro, mas não consegui mais ver placa alguma de divisa de estado. Na próxima curva, aparece uma placa informando pousada do Rio Mimoso, a 1,5 km . Na placa, abandonamos a estrada e entramos na porteira de arame a direita e fomos seguindo até encontrarmos outra porteira de arame e então entramos sem problema algum, caminhando por uma área cheio de lama. Outra porteira de arame foi cruzada, uma curva para a direita, mais uns 10 minutos de caminhada chegamos a uma ponte de troncos podres e logo a frente interceptamos em um descampado o Rio Bonito, a nossa trilha começa do outro lado.

Antes da travessia do Rio Bonito, fizemos uma pausa para um descanso. Mal hav√≠amos come√ßado a caminhada e j√° est√°vamos muito cansados. Hav√≠amos dormido quase nada, comido muito pouco, mas mesmo assim est√°vamos dispostos a chegar ao topo da pedra at√© a noite. At√© tentamos nadar no rio, mas a √°gua estava de congelar os ossos. Um mergulho foi o bastante para sairmos correndo da √°gua e vestirmos nossas roupas novamente. O Rio Bonito √© raso, mal passa da altura da cintura, por isso n√£o tivemos dificuldades de atravess√°-lo com nossas mochilas. Atravessando o rio, subimos pela esquerda, passando por um pequeno pasto, com uma grande arauc√°ria, com um bom lugar para acampar. Neste momento baixou sobre n√≥s uma espessa neblina e praticamente n√£o enxerg√°vamos quase nada. Como eu j√° havia estado por aqui h√° quase dois anos atr√°s, sabia que teria que achar um riachinho, junto a um brejo. Ent√£o passando pela arauc√°ria fomos descendo pela a esquerda, at√© intercept√°-lo a uns 80 metros abaixo. Depois do brejo, viramos a direita na j√° consolidada trilha e fomos seguindo floresta adentro, tentando nos livrar dos enormes atoleiros que mais pareciam com um grande p√Ęntano. A trilha √© meio confusa, por isso √© preciso ter muito cuidado e tentar seguir sempre pela mais batida. Menos de meia hora depois da grande arauc√°ria, trope√ßamos no Rio Goiabeira.

O Rio Goiabeira √© bem mais raso e bem mais estreito que o Rio Bonito. Sua √°gua √© igualmente cristalina e no ponto em que a trilha o atravessa, existe uma pequena cachoeirinha. Atravessamos o simp√°tico riacho e chegamos logo em mais um atoleiro. A neblina se transformou em chuva e as dificuldade foram aumentando, n√£o havia mais como fugir do lama√ßal, O Dema reclamava feito doido, tentando manter os p√©s fora da lama, mas n√£o tinha jeito, uma bobeada qualquer e a bota desaparecia.Na minha primeira tentativa de alcan√ßar a pedra, em 2009, estava muito pior. A caminhada seguia, e a chuva, cada vez mais forte. A trilha passa por mata muito densa, alguns coqueiros aparecem do lado direito e depois de uns 40 minutos ou menos chegamos a um riachinho com uma bifurca√ß√£o em ‚ÄúT‚ÄĚ. Pulamos o rio e seguimos para a direita, sempre caminhando com a floresta nos fazendo companhia. Passamos por mais um riacho e quando chegamos ao outro riacho √† frente, encontramos uma r√ļstica porteira de madeira fechando a trilha. Paramos imediatamente. Eu n√£o estava conhecendo mais a trilha, achei que est√°vamos perdidos. Procuramos pela seq√ľ√™ncia da trilha, mas n√£o achamos nada. Foi quando de repente, saindo do nada, como se tivesse vindo das entranhas da terra, surge um homem de pequena estatura, carregando a tira colo, um enorme fac√£o. Eu e meu amigo quase morremos de susto. Era um sertanejo que disse ter vindo l√° de baixo da serra para trazer cavalos para pastar no descampado pr√≥ximo dali. Achamos estranha a est√≥ria que ele nos contou, mas aproveitamos para perguntar pela trilha correta. Ele nos confirmou que ela continuava depois da cerca de troncos. Estava claro, quando havia passado por aqui da outra vez n√£o havia cerca alguma, por isso fiquei confuso. Pulamos a cerca, agora com a companhia do sertanejo e em mais um 10 minutos chegamos ao primeiro grande descampado.

Estamos dentro do Grande Parque Nacional da Serra da Boc√Ęina, Nesta parte do parque n√£o h√° fiscaliza√ß√£o alguma, aqui ele est√° entregue a sua pr√≥pria sorte e apenas a enorme dificuldade de acesso √© que o mant√™m selvagem e quase intocado. Despedimos-nos do sertanejo e seguimos enfrente, atravessando o grande descampado bem no meio, at√© encontrarmos a trilha na mata. No descampado √© poss√≠vel avistar a Pedra do Frade, mas como estava chovendo, nada vimos. Entrando, portanto na mata, em mais 20 minutos de caminhada chegamos a outro descampado, um pouco menor que o outro. Atravessamo-lo e entramos de novo na mata. A trilha vai subindo e descendo, mas sem dificuldades e ent√£o come√ßamos a caminhar por dentro de um riachinho, onde v√°rios c√≥rregos s√£o cruzados e 50 minutos depois chegamos a uma grande √°rvore, onde eu esperava encontrar um grande ‚ÄúF‚ÄĚ incrustado nela. Nada encontrei, mas como ainda lembrava do caminho segui enfrente. S√≥ que 5 minutos depois, j√° me encontrava sem saber onde estava. Abandonei minha mochila com o Dema e voltei para me certificar se estava no caminho correto. De volta a grande √°rvore, pude notar que o tal ‚ÄúF‚ÄĚ havia desaparecido embaixo dos musgos. Localizei a direita, a grande trilha que desce p√°ra o litoral. Certo de estar no caminho correto voltei a encontrar meu amigo e ent√£o retomamos a nossa caminhada. Em mais 20 minutos encontramos outra grande √°rvore, agora com a inscri√ß√£o ‚ÄúPF‚ÄĚ, de Pedra do Frade. Foi aqui que eu e meu primo acampamos em 2009 e foi daqui que voltamos para casa, fracassados , √© claro.

A nossa trilha continua a direita, sempre pela mata e vai cruzando v√°rios riachos. √ą impressionante a quantidade do precioso l√≠quido por estas bandas. Depois de cruzarmos tr√™s riachos, chegamos ao quarto. Atravessamos e nos vimos totalmente perdidos. A trilha subiu um pouco e voltou de novo para o mesmo riacho. Interceptamos uma outra trilha, que segui por uns 50 metros e se perdeu em um vale logo abaixo. Cansados ao extremo, est√°vamos sem forcas para ficar procurando pela trilha e ent√£o come√ßou a bater o desespero. Mais foi num golpe de sorte que o Dema achou perdida atr√°s de uma √°rvore o nosso caminho, e ent√£o seguimos a passos largos pela floresta, subindo e descendo at√© chegarmos a uma outra bifurca√ß√£o em ‚ÄúT‚ÄĚ. Uma trilha larga e bem aberta, na qual viramos para a direita e logo a frente chegamos a algumas pedras e a uma √°rvore ca√≠da e ent√£o pegamos para a esquerda. Fomos subindo e descendo at√© passarmos por uma ponte de troncos sobre um riacho. Logo a frente apareceu um rio bem mais caudaloso que alguns anteriores e subitamente chegamos √† Gruta dos Alem√£es, onde desabamos de cansados.

J√° eram mais de 06 horas da tarde, o Dema estava um baga√ßo e eu n√£o estava melhor que ele. A minha vontade insana de chegar ao topo da pedra do Frade n√£o havia desaparecido, mas estava dif√≠cil convencer meu amigo a seguir enfrente. O Dema estava resoluto a acampar ali. A Gruta dos alem√£es √© muito grande, mas imposs√≠vel de acampar l√° dentro. O piso √© muito irregular e muito √ļmido. J√° do lado de fora existe uma clareira plana, mas como estava chovendo tamb√©m estava quase um brejo. Mas o dema n√£o queria nem saber, iria ficar ali e pronto. Joguei minha mochila no ch√£o e cedi aos apelos do meu companheiro. Mas de s√ļbto o cara foi tocado por uma for√ßa estranha, uma energia que n√£o sei de onde veio. Talvez da mordida no doce de perna de vaca que eu tinha levado. ‚ÄúLevantou-se, colocou a mochila nas costas e disse: -‚ÄĚ Divanei, vamos pro topo‚ÄĚ. Mais que depressa apanhei minha cargueira, enchi os cantis com √°gua , j√° que era a √ļltima antes do topo e o acompanhei.N√£o pouco mais de 20 ou 30 metros a partir da boca da gruta, subindo a esquerda, come√ßa a trilha final para a pedra. A trilha sobe desgra√ßadamente, sem d√≥ nem piedade, vai passando por grandes matac√Ķes, sempre dentro da mata. A subida foi realmente penosa. Caminh√°vamos na penumbra e a noite j√° havia praticamente chegado.As nossas for√ßas j√° havia acabado a muito tempo, √©ramos mortos vivos com uma mochila nas costas, d√°vamos um passo de cada vez, nos apoiando nos nossos cajados, feitos de galhos de √°rvores, e uma hora depois da gruta chegamos ao grande mirante e desabamos de cansados.

Medo, pavor. Sim, estas são as palavras que definem a visão da Pedra do Frade vista a partir do mirante. Um grande monólito gigantesco, cativante, hipnotizante. A chuva havia dado um tempo e o litoral estava todo aberto, com as luzes das cidades acesas. Era difícil de acreditar que seria possível ir ao topo daquela montanha sem equipamentos de escalada. Na verdade estava difícil de acreditar que chegaríamos de qualquer jeito naquele dia. Já estava escuro e nós não tínhamos mais energia para irmos a lugar algum. Mas era preciso seguir enfrente, pelo menos até conseguir um lugar para montar a barraca.

Ligamos uma pequena lanterna, j√° que eu estava sem coragem de montar a minha lanterna de cabe√ßa. O Dema foi nos guiando noite a dentro, pelo selado que liga o mirante a base da pedra. Cada vez que via um palmo de areia, sugeria que acamp√°ssemos. Alguns lugares eram t√£o pequenos que n√£o daria nem para um gato fazer as suas necessidades. Eu n√£o estava enxergando nada, vez por outra socava meu p√© em um buraco e o meu joelho em uma pedra. Meia hora ap√≥s o mirante, com a chuva voltando a nos castigar, chegamos √† base da Pedra do Frade. A trilha segue para a direita sem se afastar em nenhum momento da pedra. O Dema continuava querendo acampar em qualquer lugar. Est√°vamos nas √ļltimas, se sent√°ssemos n√£o levantar√≠amos mais. Mesmo assim, queria chegar ao topo, e a todo o momento, eu tentava persuadi-lo a ir at√© l√°. √Čramos dois zumbis vagando ao lado da pedra. A situa√ß√£o come√ßou a ficar perigosa. Quase ca√≠ numa fenda escura junto a uma grande rocha. E a trilha foi seguindo por baixo de grandes pedras, at√© que chegou a uma grande parede quase intranspon√≠vel, pelo menos para nos, naquele estado lastim√°vel. Hav√≠amos perdido a trilha, hav√≠amos perdido a esperan√ßa de chegar ao topo naquele dia. N√£o t√≠nhamos mais for√ßa pra nada. N√£o t√≠nhamos mais for√ßa nem pra procurar um lugar pra acampar. Est√°vamos acabados. A Grande Pedra do Frade, havia nos vencido naquele dia, est√°vamos fadados ao fracasso. Poder√≠amos subir no dia seguinte, mas com certeza n√£o ver√≠amos nada l√° de cima. A previs√£o do tempo previa chuvas intensas: _ MALDITA PEDRA, voc√™ nos venceu de novo!!!!

A Trilha terminou junto a uma parede, como eu acabei de dizer. Na verdade est√°vamos em uma esp√©cie de gruta. O ch√£o era plano e seco. A √°gua da chuva escorria pelas paredes e entrava em um grande buraco. O local era t√£o abrigado do vento que pudemos deixar as velas acesas sem nenhuma preocupa√ß√£o de elas apagarem. Pra falar a verdade, talvez este seja o melhor lugar para se acampar junto √† pedra. O Dema queria dormir sem barraca. N√£o t√≠nhamos nem for√ßas para monta-la, mas como eu ainda n√£o tinha certeza se o local era mesmo bem abrigado, fizemos mais este sacrif√≠cio. Montada a barraca, jogamos o isolante t√©rmico e o saco de dormir para dentro e nos arrastamos para dentro tamb√©m. Combinamos de descansar por uma meia hora e depois levantar√≠amos para preparar a janta. O nosso descanso acabou se estendendo um pouco mais. Acordamos da quase morte √†s 04 da manh√£ e resolvemos mandar a janta para ‚ÄúPQP‚ÄĚ e voltamos a dormir. E dormimos e dormimos e dormimos at√© as nove da manh√£. Foram mais de 12 horas de sono e s√≥ acordamos quando deu vontade de acordar, sem compromisso com nada. O vento varria a pedra. A minha esperan√ßa de conseguir ver alguma coisa l√° de cima tinha se reduzido a zero. Deixando a ang√ļstia da pedra de lado, tratamos logo de cuidar do caf√© da manh√£, antes da derradeira subida final.

Com a barriga cheia e as energias renovadas, pegamos apenas água e agasalho e reencontrando nossa trilha a 3 metros da nossa toca, seguimos para o topo. A trilha vai seguindo sempre colada a pedra e vai contornado-a até que intercepta a canaleta final, que dá acesso à escadinha de madeira, instalada há décadas para dar acesso ao cume. Chegando, portanto na canaleta, pegamos para a esquerda, ou seja, pra cima e logo alcançamos a escada, incrustada de musgo, onde uma corda ajuda e da segurança à subida.Depois da escada é preciso deixar a canaleta pela direita e subindo pela esquerda, ganhamos o grande paredão de acesso a clareira de acampamento. Mais alguns metros e estamos finalmente no grande cume.

1590 metros de altura. ‚ÄúMeu deus‚ÄĚ est√° tudo aberto!!!!! Somos tomados por uma euforia e uma alegria que n√£o tem tamanho. A montanha reconheceu o nosso esfor√ßo. Corremos para c√° e para l√° feito crian√ßas. Enquanto meu amigo liga para sua fam√≠lia em Sumar√©, contanto sobre sua grande aventura e de como foi dif√≠cil chegar at√© ali, n√£o me contenho e deixo uma l√°grima escapar. A beleza √© coisa que me comove. E como √© linda a vista l√° de cima. Um litoral com centenas de ilhas e ilhotas. A baia de Angra √© realmente fant√°stica. A oeste toda impon√™ncia da Boc√Ęina, com floresta a perder de vista, onde gigantescas cachoeiras despencam de altas montanhas.√ą gratificante sentar-se no cume de uma montanha como esta e olhar o mundo daqui de cima. Tudo l√° embaixo parece pequeno e f√ļtil. Um grande carro, um grande barco, uma grande mals√£o. Tudo √© insignificante. Grande mesmo √© esta pedra, grande mesmo √© este sentimento de liberdade, que nos invade estando aqui encima, e isto n√£o tem dinheiro que pague.

Ficamos por mais de uma hora no topo e quando o tempo voltou a fechar, nos despedimos da nossa querida pedra e voltamos para o nosso acampamento, no sopé da pedra. Descemos em 20 minutos à nossa gruta. Como não sei se o lugar tinha nome, mesmo sem o consentimento do meu amigo, vou batizá-la de gruta do Bom Abrigo, talvez sirva de referencia para outros aventureiros que vier depois de nós.

Resolvemos preparar o almoço antes de partirmos de volta para a gruta dos alemães. Nada de comida liofilizada, a base de soja ou miojos e coisas do gênero. Arroz, grão de bico, feijão, sardinha, salame, queijo, carde de sol dessalgada, doce de abóbora, mocotó, sucos, torradas e por aí vai...Comemos até quase desmaiar.

De volta a trilha, em uma hora est√°vamos de volta √† grande gruta. Nossa inten√ß√£o era localizar uma das trilhas que liga a gruta dos alem√£es ao litoral, mais precisamente perto das cercanias de Cunhambebe. A trilha existe, mais deve estar sem uso a muito tempo porque n√£o encontramos nem sinal delas, talvez dever√≠amos te-la procurado melhor. Mas como encontramos a trilha do Frade totalmente fechada a partir da √°rvore com a inscri√ß√£o ‚ÄúF‚ÄĚ, imaginamos o estado que estaria esta trilha caso a tiv√©ssemos encontrado. Seguimos ent√£o para o nosso plano ‚ÄúB‚ÄĚ. Descer para o litoral pela trilha para mambucaba, que √© a trilha da √°rvore ‚ÄúF‚ÄĚ . Ent√£o a passos largos e decididos, j√° que est√°vamos com energia de sobra, voltamos rapidamente para a tal √°rvore e encontramos a bifurca√ß√£o. O Dema resolveu n√£o deixar que este importante ponto de localiza√ß√£o dos caminhantes desaparecesse e resolveu refazer a letra ‚ÄúF‚ÄĚ da √°rvore. Chegando √† grande √°rvore viramos agora para a esquerda na grande trilha larga e bem aberta, j√° que √© freq√ľentada por mulas de palmiteiros. Caminhamos uns 60 metros e demos de cara com uma clareira quase no meio da trilha. J√° passava das 06 da tarde e ent√£o resolvemos acampar, pois n√£o sab√≠amos se encontrar√≠amos coisa melhor pela frente. A clareira fica junto a um pequeno riacho, ou po√ßa de √°gua, que talvez nem exista no inverno. Montamos nossa barraca, mas ficamos preocupados. Caso chovesse muito, a √°gua inundaria nossa casa. A noite caiu r√°pido no meio da grande mata e a ‚Äúsapaiada‚ÄĚ fazia coro na floresta. Jantamos muito bem e ficamos jogando conversa fora at√© tarde da noite. O Dema guardou sua faca do ‚ÄúRambo‚ÄĚ em lugar estrat√©gico, caso aparecesse um palmiteiro malvado.

Acordamos √†s 08h30min e partimos logo. A trilha √© bem aberta e bem lamacenta, praticamente s√≥ desce. Uma hora de caminhada depois, passamos por um lugar plano onde seria poss√≠vel montar uma barraca e mais uma hora chegamos a um mirante, onde em dias claros pode se avistar a Pedra do Frade. Passamos pela porteira de arame e descemos muito r√°pido. No caminho passamos por v√°rias palmeiras Ju√ßaras cortadas, denunciando a presen√ßa dos palmiteiros durante a noite. Depois de umas 3 horas de descida chegamos a uma bifurca√ß√£o. Escolhemos no par ou impar e pegamos para a esquerda, onde fomos dar em um rancho de palmiteiros. Um pequeno s√≠tio meio abandonado. Um rancho com fog√£o a lenha, camas e utens√≠lios de cozinha. Na frente do rancho, tr√™s mulas carregadas com uns 80 quilos de palmito cada uma. Ao lado das mulas os terr√≠veis, sanguin√°rios, bandoleiros, assassinos de trilheiros e caminhantes. Dois palmiteiros e um ca√ßador frente a frente conosco. Esta √© a id√©ia que nos passaram dos palmiteiros, quando estivemos nesta serra em 2009. Na verdade, sertanejos que exalam simplicidade, sofrimento e mis√©ria. Nos receberm com bananas, caf√© e outras frutas e com uma amabilidade que n√£o se encontra em lugar algum. A chuva desabou sobre nossas cabe√ßas e ficamos durante horas, abrigados no rancho, tomando baldes de caf√© na companhia do ca√ßador e de sua filhinha. Despedimos-nos desta gente sofrida e seguimos nosso caminho serra abaixo, sempre optando pelas bifurca√ß√Ķes √† direita, at√© que sa√≠mos em um casebre de pau-a-pique. Depois do casebre apareceu uma pequena estrada e em menos de 40 minutos nos levou a uma estrada maior e depois de mais uma meia hora desembocamos na estrada principal. Esta estrada √© a mesma estradinha onde termina a tradicional trilha do ouro. Quinze minutos adicionais, j√° est√°vamos nos lavando de toda a lama no ultimo grande rio desta pitoresca estrada.

Foi no rio que nos encontramos com um grupo de 14 adolescentes da Igreja adventista, que haviam chegados da trilha do ouro. Juntamos-nos a eles e seguimos por hora e meia at√© Mambucaba, que n√≥s j√° conhec√≠amos quando fizemos a travessia do ouro em 1998. Em Mambucaba n√£o achamos nenhum camping e gra√ßas √†s negocia√ß√Ķes do l√≠der dos escoteiros, conseguimos uma pousada simples pela metade do pre√ßo, j√° que o povoado estava as moscas por causa das chuvas. Os adventistas eram da capital paulista e como estavam de micro√īnibus nos ofereceram um carona at√© S√£o Paulo e de l√° pegamos um √īnibus para Campinas, aonde chegamos √† meia noite e meia do feriado de finados.

Como j√° era de madrugada, a mulher do Dema veio nos pegar na rodovi√°ria. Ver o encontro do meu amigo com sua fam√≠lia foi impag√°vel. Ele n√£o se continha, parecia crian√ßinha contando como foi andar na roda gigante, na montanha russa e no chap√©u mexicano. N√£o sou louco de afirmar que o meu amigo professor tenha se curado da depress√£o, das suas s√≠ndromes e de seu stress cr√īnico, mas com certeza passara v√°rias semanas com a alma lavada e com o cora√ß√£o cheio, contando para os amigos sobre suas aventuras e dos dias maravilhosos e de grande liberdade que passou por aquelas florestas e montanhas e vai falar da conquista de uma tal Pedra do Frade e vai se lembrar desta travessia e da consolida√ß√£o de uma grande amizade de inf√Ęncia, porque sinceramente, √© assim que eu me sinto hoje.

Divanei Goes de Paula / Novembro/2010

http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=2487400753300966797&aid=1289061721

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