Travessia na Costa dos Coqueiros – BA

Um convite para passar as férias em Salvador-BA, foi a deixa para a realização desta linda caminhada. Foram sete dias de andanças pelas praias espetaculares entre a capital baiana e a divisa com o estado de Sergipe. Vilas de hippies, de pescadores, de milionários, tendo como cenários coqueirais sem fim, dunas branquíssimas, praias desertas, restingas, rios cristalinos, com certeza um dos lugares mais belos do Brasil.

Antes de descrever esta caminhada, não posso deixar de agradecer de coração aos meus tios, Donizeth e Railda, que nos recebeu e nos aturou por quase vinte dias em sua casa em Salvador. Foi lá que fizemos nossa base para conhecer toda a região. Ficamos uma semana na capital nos deliciando com a comida local, conhecendo a cultura e as praias. Até pescamos no mar, um peixão de seis quilos, que claro, virou uma deliciosa moqueca, uma delicia!!!!

A priori, a minha intenção era seguir sozinho na travessia, mas logo um casal de primos se prontificou a me acompanhar. O problema era que eu não tinha levado estrutura nenhuma para comportar mais que uma pessoa. Tinha apenas uma barraquinha e alguns poucos equipamentos de camping, que mal davam para mim. Mesmo assim vislumbrando o fato de ter mais gente como companhia, improvisamos tudo e tocamos o “dane-se” e seja o que Deus quiser. Pra piorar, ou pra melhorar, minha filha de 10 anos bateu o pé para ir junto. Estava formado o grupo: Divanei(eu, é claro!) ,Viviane(Vivi), Alexandre(pardal) e a pequena Julia. O único com experiência era eu, os outros seriam uma incógnita. Conseguiriam chegar ao fim da travessia? Agüentariam as longas horas sobre um sol de quase 40 graus? Adaptar-se-iam ao desconforto, a falta de banho, a pouca água e a comida escassa? Perguntas que só seriam respondidas quando já estivéssemos com os pés fincados na areia.

Acordamos bem cedo no dia 31 de janeiro e com uma animação enorme, pegamos o ônibus enfrente a praia de Piatã, bem na divisa com a famosa praia de Itapuã. O coletivo percorre alguns quilômetros junto à praia e depois segue para Lauro de Freitas e em mais ou menos uma hora de viagem, às 10 da manha saltamos no ponto final, bem enfrente a pequena lagoa, no vilarejo de Jauá. O fato de eu escolher Jauá para dar início a caminhada não foi á toa. De Jauá até a vila hippie de Arembepe daria umas três horas de caminhada, seria um tempo suficiente para testar como estaria fisicamente meus novos companheiros de aventura, principalmente minha filha. Partindo, portanto da lagoa, seguimos por uns cinco minutos até desembocarmos na praia. Jauá é uma praia muito bonita, principalmente quando a maré está baixa. Nela forma-se uma grande piscina natural, praticamente uma grande lagoa de águas mansas. Sobre as pedras e a barreira de coral, aparecem várias piscininhas com muitos peixes e ouriços, um belo cenário para o início da nossa caminhada. Descemos à praia e fomos seguindo pela areia até atingirmos os últimos quiosques, junto a grandes pedras, onde a praia é muito calma e as crianças se esbaldavam nas suas águas mornas. Deixando para trás esta praia e virando a “esquina”, damos logo de cara com uma enorme praia praticamente desprovida de gente. Logo aparecem grandes mansões que devem custar fácil, alguns milhões de reais. Todas elas com enormes jardins, parecendo casas que vemos nos filmes americanos. Todas as casas contam com vigias armados, que fazem segurança para os hóspedes adinheirados, que nos olham com uma cara de espanto e nojo. Se pudesse teriam nos barrado e não nos deixariam passar por esta praia quase que exclusiva. Só para sacanear, passei dando bom dia pra todo mundo, só pra ver a cara dos almofadinhas diante da minha audácia. Deixamos esta praia de Interlagos e seguimos a passos rápidos em direção a Arembepe. Não era raro eu ficar chamando a atenção da Julia para que ele apertasse o passo, mas ela não tava nem aí, queria era ficar dando “tbum” e catando conchinhas o tempo todo. Comecei a desconfiar que ela não passaria deste primeiro dia.Quase 3 horas de caminhada, alcançamos o início da vila de Arembepe. A fim de ganhar tempo, deixamos a praia e resolvemos seguir pela rua de asfalto . Andamos por 2 km num calor dos infernos, quase viramos frango assado. Foi boa a experiência, agora sabíamos que o melhor seria sempre andar pela praia, que é muito mais fresco e sempre tem o vento que vem do mar para arrefecer a temperatura. Antes de chegar ao centrinho do vilarejo, paramos em um boteco para delicioso “PF”. Com a barriga cheia, finalmente passamos pelo vilarejo e voltamos a colocar os pés na areia. A praia é um pouco movimentada, com algumas barracas de vendedores. Seguimos enfrente e em mais uns 10 minutos a praia volta a ser deserta e em outros 20 minutos passamos enfrente ao núcleo do projeto TAMAR, órgão que cuida da proteção das tartarugas marinhas e então deixamos a praia e subimos as dunas para adentrarmos de vez na mundialmente famosa Vila Hippie de Arembepe.

A Vila Hippie é um lugar lindíssimo, com casas feitas com palha de coqueiro e barro. Tudo muito rústico e desprovido de luxo e sem frescuras. Quase todas as casas não têm luz elétrica e em muitas nem mesmo água. Em todo canto há um artesão e um artista plástico, todos vivendo sem conforto algum e todos por pura opção. É um mundo de desapego as coisas materiais, bem no estilo paz e amor mesmo. Atrás da vila está o Rio Capivara, de águas límpidas e mornas, onde quase todo mundo vai tomar banho. No centro da vila existe um barracão comunitário, que serve como feira de artesanato. Esta vila é um dos lugares mais agradáveis que eu conheci na vida. As pessoas são tranqüilas e amáveis e rola um respeito pelos visitantes, que pouco vi em outros lugares por onde andei. Montamos nossa barraca no terreno de um bicho grilo artesão, bem enfrente a praia. Ele nos cobrou dois reais por pessoa para acamparmos lá, mas não tinha infra-estrutura nenhuma, nem água tinha. Claro que poderíamos ter montado nossa barraca em qualquer lugar, já que lá não rola muito esse negócio de propriedade e tudo parece ser de todos, mas gostamos do lugar e ficamos por lá mesmo. Aproveitamos a tarde livre e fomos tomar banho no Rio Capivara. Que delicia aquele rio!!!  Águas mornas, com fundo de areia e com uma vista de tirar o fôlego, não há palavras que descreva a satisfação de estar em um lugar daquele, a vontade é de ficar um mês. Fomos descendo o rio até sua grande curva, onde ele começa a correr paralelo á praia. Subimos à duna e fomos voltando para onde estava nossa barraca e paramos para apreciar um por do sol que fez jus a grandeza daquele lugar. A noite caiu e para nossa surpresa, o resto da família que havia ficado em Salvador veio nos visitar. O carro chega somente ao estacionamento da vila, depois é preciso seguir a pé pelas dunas. Encontramos com a galera no estacionamento. Convence-los a ir até onde estava nossa barraca não foi fácil. Ainda rola por parte daqueles que ainda não está familiarizado com o mundo dos alternativos, um preconceito de achar que lá vão encontrar drogados e seres praticamente de outros planetas. Com muito custo, foram nos visitar, mas somente por alguns minutos. Foi aí que veio a surpresa. Meu pai resolveu que iria seguir na caminhada conosco. Eu não havia conseguido de modo algum convencer a minha filha a voltar com eles pra Salvador e agora ainda teria mais um na nossa expedição. Claro, pra mim seria um prazer ter meu pai comigo. O grande problema é que não tínhamos estrutura pra todo mundo. Uma barraca para duas pessoas e éramos agora cinco. Pelo jeito seria uma aventura pra ninguém botar defeito. E assim foi como Seu Chico(62 anos), meu pai, se juntou a nossa expedição. Dormindo quatro pessoas na barraquinha e uma do lado de fora, acordamos ás cinco da manha para ver o sol nascer, muito cedo para quem foi dormir tarde por ter ficado de bobeira acompanhando um luau na noite anterior. Jogamos as mochilas nas costas e fomos fazer nosso café junto ao Rio Capivara, já que não tínhamos água disponível. Aproveitamos para tomar mais um banho e também para pegar água para a caminhada. Ás 8 horas da manha estávamos de novo com os pés na areia, caminhando em uma praia deserta, com os coqueiros perfilados. Á nossa frente, um emissário nos serve como guia e em uma hora de caminhada, já estamos lá, fazendo pose para uma foto da praia que acabamos de deixar para trás. Junto ao emissário reencontramos o Rio Capivara. Aproveitamos para atravessar uma pequena ponte e ir tomar um refrigerante gelado em um quiosque do outro lado. Eu e a Julia aproveitamos também para mais um mergulho nesse lindo rio.

Ainda são 9 horas da manhã, mas o sol parece de meio dia. Retomamos a caminhada, mas ao invés de seguir pela praia, prefiro ir seguindo por uma trilha em meio aos coqueiros, por cima das dunas. É uma pena os coqueiros serem muito altos por aqui, o calor é imenso e a vontade de tomar uma água de coco é enorme, mas nos falta habilidade para subir tão alto e alcançar nossa fonte de desejo. A praia é deserta e linda, enfim uma praia do nordeste como sempre sonhei conhecer, mar, dunas, e coqueirais a perder de vista e sem nenhuma alma viva alem de nós. Andamos por mais uma hora apreciando este lindo cenário, mas o sol não estava brincadeira não. Quando encontramos de novo com o Rio Capivara, agora correndo junto a um grande mangue, não titubeamos, jogamos a mochilas no chão e pulamos na água para mais um banho. Ficamos um bom tempo apreciando os milhares de filhotes de caranguejo que tinha por lá.

Como o tempo voa, voltamos para a caminhada dispostos a seguir rápido e sem mais paradas, pois havíamos combinado de almoçar com toda a família na Praia do Forte. Encontramos com um homem que praticava caça submarina. Ele estava colhendo vários ouriços e nos disse que ia comê-los. Disse que comeria cru e assado. Aproveitei para experimentar a iguaria e comi alguns vivos, mesmo com a desaprovação da minha filha Julia, que se recusou a me dar um beijinho, e ainda ficou fazendo ânsia diante do meu “lanchinho”. Às 11 horas da manha, chegamos à Barra do Jacuípe, lugar onde os rios Capivara e Jacuípe se juntam e deságuam no mar. O lugar é lindíssimo, lembrando muito os Lençóis Maranhenses, pois formam pequenas lagoas em meio às dunas brancas. Nosso problema seria atravessá-lo, já que a maré estava um pouco alta. O pescador de ouriços nos informou que haveria uma canoa, bastava subir o rio por uns 300 metros. Informação que não se confirmou, pois não encontramos canoa alguma. Pergunto para algumas pessoas se tem algum jeito de atravessar a pé mesmo e um local me disse que era possível e se prontifica a me ajudar. Com a mochila na cabeça, vou seguindo o nativo. O rio vai ficando cada vez mais fundo e vou tateando a areia com os pés até que afundo de vez. Só deu tempo de prender a respiração e dar um passo a trás. Vejo que é impossível para mim atravessa-lo. O nativo, muito gente fina, pega a minha mochila e a atravessa andando sob a água por um longo trecho. Passo a nado mesmo, de roupa e tudo. Meu problema estava resolvido, faltava agora atravessar os outros quatro. O pescador de ouriços veio nos socorrer com seu caiac, levando todas as mochilinhas da galera. A minha filha colocou o colete que eu havia trazido para ela, já prevendo que isso poderia acontecer. Os outros fizeram como eu, passaram a nado mesmo. A modalidade aventura havia acabado de ser inaugurada na nossa expedição. Para comemorar mais essa conquista, paramos em uma barraquinha para comer um delicioso bolinho de bacalhau.

Poderíamos continuar andando pelas praias mais um dia e meio até a Praia do Forte, mas eu sabia que em uma semana seria impossível trilhar todo o caminho até Mangue Seco, pois como já havia dito, o grupo era heterogêneo, com a maioria de marinheiros de primeira viagem. Optei por pular alguns trechos, usando algum transporte. Tentei escolher os lugares mais famosos, alternando com os mais selvagens, o que me daria um apanhado geral de toda esta região paradisíaca. Deixando, portanto, para trás a linda Barra do Jacuípe, atravessamos a pequena ponte e alcançamos o vilarejo, onde paramos para beber água de coco. Putzzz, ter que pagar pela água de coco, depois de ver tanto pé de coco, me deixou indignado. Continuamos nossa caminhada até atingirmos a rodovia, que aqui é conhecida como a famosa Linha Verde. Na Linha Verde, tomamos uma Van direto para Praia do Forte, onde encontraríamos o resto da família para o último almoço, antes de nos perdermos de vez pelo selvagem mundo das praias do norte baiano.

A chegada a internacional Praia do Forte é surpreendente. Com certeza é o lugar mais desenvolvido de toda a Bahia. Nem em Salvador se verá coisa igual. Tudo é limpo, organizado, com lojas e restaurantes sofisticados. Shopping e pousadas de luxo estão por todos os lados. Turistas de todos os cantos do mundo perambulam pelo calçamento, onde carros não entram. Dirigíramos-nos para a pequena igreja, que fica bem enfrente a praia, pois foi o local combinado para o encontro com o resto da família. Enquanto esperávamos, recebemos a notícia da primeira baixa da nossa caminhada. A Julia estava toda assada, andando igual a um cowboy. Por livre e espontânea vontade, ela resolveu que não seguiria mais conosco. Para ela a caminhada terminara ali. Para dizer a verdade, o que aconteceu com ela também estava acontecendo com todos nós, por isso resolvemos dar um jeito de descolar umas pomadas para assadura. Decidimos também nos livrar da metade de todo o peso que estávamos carregando. Só seguiríamos com o que fosse essencial e nada mais. Quando a galera chegou, tratamos logo de forrar o estômago, pois estávamos famintos. Depois do belo almoço, fomos conhecer a praia do Forte, onde está instalado o TAMAR. Tiramos umas fotos, demos um mergulho, fomos conhecer o Farol do Forte. À tardinha nos despedimos de vez dos nossos familiares e seguimos nossa caminhada por mais uma hora e meia e como não encontramos nenhum bom lugar para acampar sobre as restingas, resolvemos acampar na areia da praia mesmo. Cansados, resolvemos que não faríamos janta e acabamos nos alimentando do resto da comida que havíamos pegado no almoço, na Praia do Forte. Dormimos três na barraquinha e um do lado de fora, mas de madrugada uma rápida tempestade obrigou meu pai a se juntar a nós, transformando nossa casa de praia num lugar quase insuportável, por causa do calor que fazia. Ás 04h30min da manha já estávamos de pé, desmontando tudo e as 06h00min horas estávamos de novo caminhando. Mesmo tão sedo o calor já é insuportável e eu prefiro andar sempre com os pés dentro da água do mar. Vamos seguindo pela grande praia, sempre com a companhia constante de uma floresta de coqueiros. Uma hora e meia depois de começarmos a caminhar, avistamos uns coqueiros baixos e não tivemos dúvidas , subimos as dunas e fomos tentar pegar alguns. O Pardal conseguiu cutuca-los com uma vara e os “meninos verdes” despencaram. Estava inaugurada a modalidade tomar água de coco direto da fonte. E bebemos até não agüentar mais, e aproveitamos para tomar água de coco com pão, já que não tínhamos tomado café por falta de água. Estávamos literalmente passando a pão e água.

Não demora muito e chegamos à barra do Rio barroso, onde atravessamos com a água na altura do joelho. Estamos na Praia de Imbassaí, com vários quiosques, mas poucos turistas. Paralelamente a esta praia corre o Rio Imbassaí e é lá que aproveitamos para tomar um belo banho. Banho mesmo, com xampu e sabonete. Foi quando descobri que toda a minha roupa havia ficado na bolsa da minha filha e agora eu me encontrava apenas com a roupa do corpo, que eram uma camiseta, uma bermuda, um calção de banho e uma cueca. E essa era toda a minha roupa para os próximos cinco dias. Tratei logo de lavar tudo e por pra secar sobre um coqueiro. Coisa que não levou nem 20 minutos por causa do sol forte e da temperatura beirando os 40 graus. Não chegamos a ir até a vila de Imbassaí porque nos disseram que estava a uns 2 km da praia. Não queríamos perder mais tempo e tocamos enfrente, voltando a caminhar por mais uma gigantesca praia deserta. Vamos procurando no horizonte algo que nos conforte a caminhada e logo avistamos o que seria uma rústica jangada. Aliás, deste ponto pra frente este rústico instrumento de navegação foi nossa companhia freqüente, pois se trata de embarcação tradicional de pesca do litoral norte baiano Às nove horas da manha avistamos um barco naufragado e encalhado bem na areia da praia e quarenta minutos depois damos de cara com dois garotos montados em um jegue, indo vender alguma coisa na Praia de Imbassaí. O calor “ta pegando” e a Vivi já começa a dar sinais de cansaço e só pra sacanear, começamos a chamá-la de Julia, uma alusão à vagareza da minha filha, que ficava muito para trás e só queria saber de catar conchinhas. Logo nos deparamos com mais um indivíduo praticante de caça submarina e em suas mão uma lagosta gigantesca nos chama a atenção. Aproveitamos para bater umas fotos e perguntar pela Vila de Santo Antonio. Ele nos confirma que estamos perto e logo avistamos uma barraca de praia e foi ao lado dela que entramos e seguimos por mais uns 500 metros até adentrarmos no minúsculo vilarejo. Escondido atrás das dunas, Santo Antonio é pequena, muito pequena. Suas ruas são de areia, aliás, areia super quente, Um pequeno restaurante, um lugar que aluga quartos e algumas casas espalhadas por baixo dos coqueirais, uma pequena escolinha e praticamente não mais que isso. A estrada para quem vem da Linha Verde é feita de cascas de coco. É realmente o fim do mundo, ou quase. Na única lanchonete do lugarejo, aproveitamos para comer alguma coisa antes de voltarmos para nossa caminhada. Reabastecidos, vamos andando numa diagonal até sairmos de vez da vila, desta vez pela sua entrada principal, onde uma rústica placa escrita com letras tortas indica o local.

Retomando as nossas andanças, seguimos num ritmo muito lento. Olhávamos para o final das praias, até onde a vista alcançasse, onde praticamente termina uma e depois começa outra e ficávamos apostando o que haveria depois das curvas e quase sempre encontrávamos as mesmas coisas: Areia, duna, mar e coqueiros. A monotonia era quebrada com a presença de águas viva espalhada pela praia, e algum siri correndo loucamente para o mar quando nos via. Mas não demora muito e a uma hora da tarde começamos avistar as imensas mansões e resorts que compõe o famoso complexo Costa do Sauipe. Costa do Sauipe é o lugar onde ricos e famosos vem descansar, ficando isolados da ralé(nós). Tudo aqui é exclusivo. Há guardas armados, massagistas, espreguiçadeiras espalhadas por toda a praia, tudo é chique e luxuoso. Ao chegarmos, ao local viramos atração turística. Todos os olhares se voltam para nós, parece que surgimos de outro planeta. Nosso estado é deplorável comparando com todos os milionários e suas famílias. Vamos desfilando nossa pobreza pela praia sobre o olhar incrédulo dos abastados e afortunados banhistas. Tento perguntar se a vila de Porto Sauipe está longe, mas antes de eu terminar a frase o indivíduo me diz obrigado. Achou que eu estava vendendo algo. Tento repedir a pergunta, mas o cara me interrompe de novo e apenas responde obrigado. Vejo que o cara não quer conversa, me trata como lixo. Pra falar a verdade percebemos que a vontade de todos era nos enxotar da praia, nos escorraçar. Acostumado a esse tipo de gente, que infelizmente na região sudeste tem de monte, damos de ombro e seguimos enfrente. É lamentável, essa elite porca, se deslocam principalmente do Rio e de São Paulo para passar férias por aqui. Não conversam com ninguém, não interagem com os nativos, não conversam com os pescadores, não tem a humildade de tentar aprender algo com os outros viajantes e voltam pra casa arrotando para todo mundo que passaram férias na Costa do Sauipe. Voltam pra casa os mesmos “merdas” que chegaram aqui, azar deles.

Apressamos o passo até atingirmos o que parecia ser o centro da Costa do Sauipe. Onde os resorts são gigantescos e aonde vão surgindo grandes piscinas e várias lojas. Não vimos o campo de golfe, mas ficamos sabendo que ele existe. Saímos da areia da praia e subimos paras as pequenas dunas, aonde foram instaladas passarelas e decks de madeira para que hóspedes não sujem os pés na areia. Seguindo pelos decks para apressar a passada, somos novamente observados de perto pelos seguranças. Sem nos importar com os olhares fuzilantes, deixamos este antro capitalista para trás e logo depois de uma grande curva, voltamos a nos encontrarmos novamente donos do paraíso, onde as praias voltam a ser deserta e os coqueiros reinam soberanos ao balanço do vento fresco que sopra do mar. As três da tarde atingimos a barra do Rio Sauipe. Pergunto para um jovem nativo se há canoa para a travessia e ele diz que não, mas informa que  talvez o salva vidas que trabalho do outro lado, possa nos atravessar. O Rio Sauipe é enorme, ainda mais quando a maré está cheia. Sua correnteza é muito forte, o que torna sua travessia muito perigosa, mesmo com canoas, e a nado então é perigosíssimo. Gritamos pelo salva-vidas, que rapidinho veio nos atender. Disse que do outro lado havia uma minúscula jangada e talvez o jangadeiro pudesse nos atravessar. O sujeito veio ao nosso encontro e se ofereceu para nos ajudar, mediante pagamento, é claro. Colocamos todas as mochilas no insignificante veículo de transporte aquático e ficamos torcendo para aquela “merda” não virar. Por várias vezes estivemos ameaçados de perder tudo, e o jangadeiro alagoano ficava dizendo que tudo estava sobre controle e que ele era o cara e que alagoano nunca deixa a canoa virar e aquelas conversas fiadas de sempre. Para piorar essa travessia maluca, o salva-vidas pediu para que eu subisse em sua prancha de surf, pois ele iria me atravessar e assim agilizaria o processo. Subi no pranchão junto com o cara e fomos os dois remando em meio à violenta correnteza. Juro que teria preferido ter atravessado a nado. O diabo daquela prancha escorregava igual a um quiabo e por várias vezes não cai na correnteza. Já do outro lado descarrego as nossas mochilas às pressas para que a jangada seja liberada para fazer a travessia dos meus primos e do meu pai. Volto meu olhar para o outro lado do rio e vejo meus companheiros de aventura pendurados nas pranchas de surf de outros salva-vidas. Fico muito apreensivo, pois sei que os outros não nadam tão bem como eu e se caírem na água, poderá acontecer uma tragédia, ainda mais meu pai, que tem o movimento de um dos braços comprometido. Mas todos chegam com segurança e assim estava inaugurada a modalidade: “travessia de rio com o fiofó na mão”.

E assim finalmente chegamos ao Porto Sauipe, que não deve ser nunca confundido com Costa do Sauipe. Porto Sauipe é um lugar sem luxos, uma vila como outra qualquer. A vila propriamente dita fica a uns 2 km do rio Sauipe e para chegar até ela resolvemos seguir pela estradinha de terra, que segue paralela à praia. Quando chegamos ao seu centro, fomos logo procurar um lugar para almoçar e descansar um pouco, pois o sol tava de rachar. O único lugar onde conseguimos um “PF” pra comer foi um pequeno barzinho junto à praça central. Com a barriga cheia, jogamos as mochilas as costas e voltamos para a praia e logo nos deparamos com um enorme e inusitado cemitério a beira mar. Aqui no Porto Sauipe quem morre tem o privilégio de ter seu descanso eterno com muito estilo, sua ultima morada de frente para o mar. Seguimos caminhando rápido e decididos a ganhar terreno, já que a praia é larga e a areia bem dura. A tarde já vai chegando ao seu final e derre-pente surge em nossa frente uma linda tartaruguinha, que acabou de deixar seu ninho e corre para o mar. A cena nos alegra a alma nessa tarde quente, já que não havíamos conseguido ver as grandes tartarugas desovando na areia. Como a noite já se avizinhava, procuramos logo um lugar para acampar. Meu pai e meus primos estavam irredutíveis, não queriam acampar na areia. Estavam com as costas doando e queriam acampar em algum lugar sobre as restingas. Caminhamos muito até encontrarmos um lugar plano e mesmo assim tivemos que amassar o mato com os pés para torná-lo um lugar habitável. Instalados na restinga, não nos preocupamos com a janta, pois havíamos almoçado muito tarde e tínhamos fome alguma. Todos se recolheram e eu fiquei algum tempo passeando pela praia tentando ver se eu encontrava alguma tartaruga desovando. Não encontrei, mas ganhei de presente um céu espetacularmente estrelado. Ás nove da noite estamos todos recolhidos, três na barraca e um dormindo do lado de fora. Lá pela madrugada o tempo vira e uma tempestade despenca o que nos obriga a nos espremer de novo na pequena barraquinha para que caiba mais um. Sob o temporal me levanto e vou amarrar o plástico por cima da barraca, atitude sensata, pois se não fosse isso nossa barraca teria sido alagada. Mas o temporal durou meia hora e logo depois não havia uma nuvem no céu, coisas da Bahia.

Esse nosso quarto dia de caminhada amanhece como todos os outros, quente, muito quente. Acordamos as 04h45min e partimos ás 06h00min. Antes das 07h00min horas da manha já estamos estacionados á sombra de um coqueiro para mais uma seção de degustação de água de coco. Por causa das dunas que aumentaram de tamanho, engolindo os coqueiros, conseguimos pegar dezenas de cocos apenas esticando os braços. De novo, mais uma vez, bebemos água de coco até não agüentarmos mais, e ainda enchemos todos os cantis com a revitalizante água. Voltamos para a caminhada e antes das oito horas atingimos a placa que delimita o início da Praia Naturista de Massarandupió. A placa não deixava dúvidas: LIMITE SUL DA ÁREA NATURISTA-decreto lei: 1571-99 FAVOR MANTER NUDEZ TOTAL-ene: ecologia-naturismo e ética. Mantivemos-nos vestidos, é claro, mas havia dentro de nós um sentimento estranho. Talvez teríamos que enfrentar uma situação que jamais tínhamos enfrentado antes. Como reagiríamos em uma situação dessas, cruzar uma praia em que todos estivessem pelados. Eu e meus primos fomos caminhando lentamente, meio apreensivos com a situação que poderíamos encontrar pela frente. Meu pai, pelo contrário, não sei o que deu nele, disparou na frente feito um raio. Não sei, acho que ele estava a fim de ver umas mulheres peladas, mas o coitado do “veio” só conseguiu mesmo foi encontrar um quiosqueiro de cueca. Uns quinze minutos depois nós nos juntamos a ele sob o único quiosque funcionando naquele dia. Ainda era oito horas da manha e os pelados só chegariam lá pelas nove. Aproveitamos para nos refrescar, bebendo um refrigerante bem gelado. O vendedor nos disse que não há problema algum em passar de roupa pela praia, o que não é permitido é ficar parado por lá. Bom, antes que aparecesse algum sujeito com suas vergonhas balançando ao vento, coisa que eu não estava nem um pouco a fim de presenciar, partimos e fomos nos estacionar em um quiosque abandonado a um quilometro à frente, onde um lindo rio de águas transparentes serviu para o nosso banho matinal. Fazia um calor infernal e foi difícil largar aquele singelo riacho cercado de dunas e coqueiros. Mas como o tempo não espera, largamos mais esse paraíso para trás e nos pusemos a caminhar. Massarandupió é uma praia bonita, as dunas formam uma grande muralha, deixando-a totalmente isolada. Nos não chegamos a ir até a vila, pois estava a uns 2 km da praia. Subi nas dunas para tentar vê-la, mas não consegui ver vila alguma, mas meu esforço foi recompensado com um das mais belas visões desta travessia. Dunas branquinhas e gigantescas, tendo em sua base um lindo rio cercado por coqueiros, que cenário espetacular!!!  Vamos andando a passos lentos. Vejo que a Vivi está mais de vagar que de costume. Começo a duvidar que consiga chegar ao fim da caminhada, acho que não passará de Subaúma, a próxima vila á frente. O tempo começa a fechar e somos obrigados a estacionar junto a uma velha jangada que está em pé, encostada em uns coqueiros. Já que paramos, aproveitamos para pegar mais uns cocos. Pra isso, amarramos em uma velha corda, um pedaço de madeira e laçamos um cacho de coco. Aproveitamos também para preparar um bom almoço, já que tínhamos improvisado uma cabana com a velha jangada. A chuva dura 10 minutos e novamente o céu está sem nuvem e o calor queima tudo. Meia hora depois de reiniciarmos nossa caminhada, já estamos de novo imersos em um rio de águas cor de coco-cola. ”É, hoje ta difícil chegar ao nosso destino”. Meu pai caminha longe da água do mar, está com os pés todo comido pela areia e a água salgada. Já eu, prefiro caminhar por dentro da água para refrescar um pouco. A Vivi e o Pardal se arrastam pela linha da maré. A nossa frente já podemos ver, bem distante, o farol de Subaúma. Encontro com um mendigo na praia, ou seria um ermitão. Disse-nos que sobrevivia apenas comendo pequenos siris e quer saber se temos água tônica para lhe dar. Ofereço uma garrafinha com água de coco, o sujeito recusa. Já deve estar de saco cheio de água de coco. Tiramos uma foto do sujeito e logo depois ele desapareceu no meio dos coqueirais.

Ás 03h00min da tarde, depois de passarmos pelo farol, adentramos na pequena vila de Subaúma. Vilarejo super simpático, com gente simples. Nossa chegada causa um alvoroço no vilarejo. Somos cercados por uns quinze moleques, que nos fazem dezenas de perguntas. Querem saber de onde viemos, para onde vamos, o que levamos nas mochilas, perguntam o que estamos vendendo. Só faltaram perguntar onde foi que deixamos estacionada nossa nave. Pelo visto não é comum a presença de mochileiros por estas bandas da Bahia.

Em Subaúma fiz os cálculos e cheguei à conclusão que seria impossível chegarmos até Mangue Seco no ritmo em que estávamos. Estávamos bem cansados e a Vivi já estava dando sinal de estar nas últimas, apesar de não reclamar. Decido então pular mais um trecho e então pegamos um ônibus até a linha verde, de onde haveria a possibilidade de conseguir outro transporte até Sítio do Conde, para então tentar outro transporte até o vilarejo de Costa Azul. E assim fizemos. Partimos da “rodoviária” de Subaúma, que na verdade era um boteco, onde você comprava a passagem e podia beber uma pinga com o troco. Descemos na Linha Verde e pegamos um ônibus com destino a Sítio do Conde. Foi no ônibus que ficamos sabendo que não havia transporte algum de Sítio até Costa Azul. O cobrador nos deu a opção de seguir enfrente, descer na rodovia, junto a entrada da estradinha que poderia nos levar para Costa Azul. Disse-nos que teríamos que caminhar uns 8 km pela estrada de terra, coisa de hora e meia, no máximo. Não era nossa intenção caminhar mais naquele dia, pois estávamos cansados e queríamos acampar cedo e poupar energia para a pernada final até Mangue Seco, mas como não havia outra opção, seguimos o conselho do cobrador e ás 17h30min saltamos na tal entrada que nos levaria até Costa Azul. Um lugar ermo, onde raramente se vê algum veículo. O tempo estava fresco e fomos caminhando rápido, coisa de 5 km por hora, Não demorou muito á noite caiu e o breu se abateu sobre nós. A vegetação era igual ao do cerrado, alternando com algumas plantações de coqueiros. Havíamos caminhado mais de uma hora quando encontramos um nativo, que voltava do trabalho e ele nos disse que ainda estava muito longe e que não eram 8 km e sim mais de 15 km. Ficamos putos com o cobrador. Já havíamos aberto o bico, nossas pernas já estavam bambas e ainda teríamos mais tudo isso para andar. Como não havia outro remédio seguimos enfrente e a cada curva parávamos para amaldiçoar o desgraçado do cobrador. Finalmente, depois de três horas e meia de caminhada, avistamos o vilarejo do fim do mundo, onde não existem quase nada, apenas umas ruas de terras com algumas casas esparsas. Saímos à procura de alguma pensão pra ficar, pois estávamos sem ânimo até para montar nossa barraca. Perguntamos em um lugar, onde nos indicaram que seria uma hospedaria. O proprietário, que estava em uma mesa de carteado e sem mesmo mal olhar na nossa cara, disse que eram “50 paus” para dormir. Cinqüenta reais apenas pra nos encostar até de madrugada!!! Mandamos ele a merda e fomos montar nossa barraca em um gramado bem no meio da vila, onde uma dezena de jegues pastavam . Estávamos mortos de cansados. A Vivi ainda tirou forças não sei de onde e preparou o jantar, que não passou de um mero macarão instantâneo. Comemos e desmaiamos.

Amanhemos no nosso quinto dia de caminhada, exatamente no dia 04 de fevereiro de 2011. Coloco a cabeça pra fora da barraca e já vejo algumas senhoras reunidas nos olhando de longe. Somos mais uma vez a novidade deste lugar longe de tudo e que parece que raramente conta com a presença de turistas. Meu pai dá um jeito de conseguir uma água para o café e para nos suprir durante parte do dia. Desmonto a barraca e organizo o que posso, mesmo sendo ainda menos de 06 da manhã, apresso as coisas, pois sei que é preciso sair bem sedo, pois temos que aproveitar o frescor da manhã pára caminhar. Passamos em um boteco quase na entrada da praia para tentar comprar alguma coisa, mas igual ao singelo lugar, também não havia quase nada pra comprar. E assim, às 07 horas da manhã, demos início a nossa caminhada. Teríamos ainda pela frente mais de 30 km até o nosso destino final. Escolhi vir até o vilarejo de Costa Azul, porque seria a oportunidade de caminhar pelo trecho final que antecede o vilarejo de Mangue Seco, queria eu, caminhar pelas praias selvagens e desertas antes do nosso triunfo derradeiro. Vamos devagar, curtindo o visual, que agora se alargou muito. A praia é bonita e a areia é bem dura, ótima para caminhar. Uma hora depois encontramos pelo caminho uma fábrica de beneficiamento de camarão. O lugar parecia estar abandonado, pois estava caindo aos pedaços, mas um pescador nos confirma que ainda está em atividade. Enfrente existe uma carcaça de um barco que naufragou e ficou encalhado na areia, junto à praia. Uma hora e meia depois, com um sol pra cada um , resolvemos parar junto a uma cobertura de palha de coqueiro, que ficava enfrente a um sítio de uns pescadores. Conseguimos umas garrafas de água gelada com os moradores e fizemos um pouco de suco. Ninguém disse nada, mas percebi que a vontade de todos era ficar por lá até que o sol desse uma trégua. Mas não teve jeito e foi preciso largar a confortável sombra e nos lançar novamente à caminhada. O nosso grupo se dividiu em três: Os devagar, os muito devagar e os quase parando. Ao meio dia não teve jeito, ao encontrarmos um coqueiro solitário junto à praia, paramos para mais um descanso. Nessa parte do litoral as fazendas de cocos se afastam um pouco da praia, coisa de uns 150 metros. Eu o Pardal aproveitamos a parada para pegarmos uns cocos, pois nossa água já havia se findado. Pegar coco foi fácil por ali, pois as dunas aumentaram de tamanho, fazendo com que os coqueiros ficassem enterrados, sendo possível colher cocos apenas esticando os braços. Mais uma vez nos esbaldamos de tanto tomar água de coco, Já havíamos ficado experts no assunto, diferenciando as várias qualidades de cocos. Mais uma vez foi difícil levantar a bunda daquela sombra e seguir enfrente. Voltamos à praia e fomos nos guiando por uma ponta de terra que aparecia no horizonte e nos dava a impressão de ser uma ilha, que na verdade não passava de ilusão de ótica, pois era mesmo a ponta da praia de Mangue Seco, a meros 18 km a frente. A beira da praia ia surgindo alguns coqueiros isolados, na verdade três grandes coqueiros, de onde nos disseram depois, saem uma estrada de areia que vai até a linha verde, quase 15 km à frente. Deixando, portanto esses coqueiros para trás, logo á frente encontramos uma casa na beira da praia. Uma rústica casa abandonada e que não tarda a ser engolida pelas dunas. Largamos a mochila e resolvemos fazer nosso almoço dentro daquela decrépta habitação. Nos fundos da casa havia uma pia coberta com telhas, onde tinha muita sombra pra nos proteger. Dentro do quintal um pé de coco carregado, nos forneceu água para cozinharmos, principalmente para dessalgarmos nossa carne seca. Mesmo já de saco cheio de tanta água de coco, tivemos que encher nosso cantil com o precioso liquido. Almocei e aproveitei a sombra da varanda para tirar um cochilo, já que meu pai tinha morrido na área dos fundos da casa. Acordo meia hora depois, bem mais disposto e vou logo procurar a Vivi e o Pardal para voltarmos para a caminhada. O casal havia desaparecido, sumido, escafedido. Procuro por todo canto, mas não os encontro. Fico olhando para o mar e pensando besteira. Será que foram nadar e se afogaram? Procuro de novo e não encontro nenhum dos dois. Quando vou acordar meu pai para ver se ele tem notícias, os vejo saindo do coqueiral. Com a mais lambida das caras voltam dizendo que foram até o coqueiral para tomar banho de água de coco e tirar o sal do corpo. Putzz, essa foi de lascar!! E ainda queriam que a gente acreditasse na história. Bom, depois dessa, nos restou voltar para caminhada, que segui no mesmo ritmo de antes, ou seja, muito lenta. Uma hora depois, às 16h30min encontramos com uns cavaleiros seguindo péla praia e eles nos disseram que o Vilarejo de Coqueiro já estava bem perto. Ficamos animados e aceleramos o passo, pois era lá que havíamos combinado de acampar. A mais ou menos 1 km da entrada do vilarejo, encontramos um pescador puxando sua rede. Ele fazia uma força tremenda e corria de um lado para o outro, desesperado. Vendo a dificuldade daquele homem, Eu e o Pardal oferecemos ajuda. Fomos puxando a rede e nela foram surgindo diversas espécies de peixes. Ajudamos o homem a retirar todos os peixes e perguntamos para ele se haveria algum lugar que pudéssemos montar nossa barraca. Talvez debaixo de algum quiosque abandonado. Ele de pronto nos ofereceu seu quiosque, onde havia uma enorme cobertura de palha de coco na frente. Disse-nos que as barracas de praia só seriam usadas no domingo. Agradecemos à oferta e pedimos para comprar alguns peixes para a janta e ele disse que passaria depois no nosso acampamento. Deixemos o pescador recolocando a rede no mar e seguimos para o local indicado. A Vivi e o meu pai já haviam ido à frente e o meu pai havia encontrado um rancho abandonado. Um lindo rancho, de um só cômodo, todo construído em palha de coqueiro. O local era perfeito para passar a noite, pois não precisaríamos nem montar barraca. Alojamos-nos por lá e antes que a noite chegasse fomos apreciar um lindo por do sol. O lugar é lindo, bem na entrada para o vilarejo de Coqueiro, que ainda distava uns 2 km de distância da praia, escondido no meio das dunas. Já estávamos acomodados no rancho, quando passou o pescador voltando com seu bugue. Pegou três peixes e nos deu de presente, recusando qualquer pagamento pelo mesmo. Perguntamos a ele se tinha um pouco de água para nos arrumar e ele disse que não tinha, mas que poderia nos dar uma carona até o vilarejo de Coqueiro, onde nos daria quanta água quiséssemos. Eu e o Pardal aceitamos a oferta e subimos no veículo. Já era noite e o bugue não tinha luz alguma. O pescador foi se metendo no meio do coqueiral, subindo e descendo dunas às cegas e uns 15 minutos depois adentramos no vilarejo de Coqueiro. Um amontoado de casas, cercadas de areia por todos os lados. Um lugar realmente muito simpático e um povo com o coração do tamanho do mundo. Pegamos a água que precisávamos e fomos até uma mercearia para comprar alguma coisa.Antes mesmos de pensarmos em voltar a pé para a praia, o pescador conseguiu outro bugue emprestado e fez questão de nos levar de volta e fez isso sem cobrar nada. Comoveu-nos a hospitalidade daquela gente humilde, que queria que fossemos passar a noite por lá. Recusamos a oferta, pois já estávamos muito bem instalados no rancho abandonado. Quando chegamos de volta a Vivi já havia preparado a janta e limpo os peixes e coube a mim apenas prepara-lo e come-lo, é claro!

Depois de uma noite de sono espetacular, a melhor da nossa viagem, às 06 da manhã retomamos de novo a caminhada. Estávamos a uns 6 km de Mangue Seco e hoje seria o dia da nossa chegada. Estávamos eufóricos e muito contentes por tudo ter dado certo até o momento. Havíamos acumulado muitas histórias pra contar, conhecido lugares fantásticos, nos entupido de água de coco e conhecido seres humanas incríveis e agora estávamos prestes a entrar no que vínhamos chamando de “A Terra Prometida”. No horizonte já avistávamos as enormes dunas de Mangue Seco. Nosso cansaço praticamente desapareceu e caminhávamos muito depressa, quando passou por nós o nosso amigo pescador, o Valtinho. Estava com seu bugue lotado de senhoras, nos cumprimento e seguiu em frente. Vinte minutos depois estava de volta e pediu que subíssemos no veículo, pois ele iria nos levar para Mangue Seco, que não distava nem 2 km de onde estávamos. Não deu para recusar a carona, não iríamos fazer desfeita para aquele homem que nos ajudou tanto. O Bugue foi cruzando sobre as dunas de areia e atravessando o coqueiral e finalmente depois de seis dias de caminhada entramos em Mangue Seco em grande estilo. Eu imaginava um vilarejo bem estruturado, meio parecido com a Praia do Forte, mas o que vi foi um lugar minúsculo, com ruas de areia e casa bem simples. Boa parte das pousadas e restaurantes se concentra à beira o gigantesco Rio Real, que divide a Bahia de Sergipe. No centro da vila há uma pracinha, onde está a igreja e o salão comunitário. Uma grande árvore serve muito bem para aplacar o calor durante o dia. Mangue Seco se parece muito com a vila de Maruja, na Ilha do Cardoso-SP, sendo um pouco maior. Está espremida pelas enormes dunas que avançam ano a ano e ameaçam engolir tudo. Ao chegarmos ao vilarejo, procuramos logo um lugar para ficar. Claro que poderíamos acampar em qualquer lugar, mas achamos que merecíamos como presente um bom banho e uma cama confortável. Ficamos na pousada Grão de Areia, de frente para o rio. O dono, que mede não mais que um metro e meio, tem nome de governador romano, Julio César, um metro e meio, mas um gigante na simpatia. Todos tomamos um banho demorado. Enquanto meu pai e a Vivi foram descansar, eu e o Pardal fomos subir até a duna do Farol de Mangue Seco. De lá se tem uma visão espetacular de toda a região. Descemos a grande duna e fomos seguindo pela praianha de areia branca que fica junto ao Rio Real. Depois pegamos a estradinha de areia e seguimos o caminha até a praia de Mangue Seco. Na praia existem em quase toda a sua extensão, vária coberturas feitas de palha de coqueiro, onde ficam amarradas dezenas de redes a disposição dos banhistas, um charme. Voltamos pelo mesmo caminho que viemos, só que depois das dunas, viramos a esquerda e fomos seguindo os caminhos feito pelos bugues de aluguel, depois seguindo a direção do farol, voltamos de novo para a cidade.A noite fomos comprar uns artesanatos no shopping de Mangue Seco, comemos um lanche e fomos dormir cedo.

Acordamos bem cedo no nosso sétimo dia de viagem. Tomamos um delicioso café local, com direito a cuscuz e suco de mangaba e aproveitando a companhia de um casal de Salvador, alugamos uma pequena lancha para nos levar para Pontal, do outro lado do Rio Real, já no estado de Sergipe. De lá alugamos um carro até a cidade de Estância, já que era domingo e não havia ônibus. Chegando a Estância-SE só havia ônibus para Salvador no período da tarde e com preços que eram o dobro do convencional. Então conseguimos alugar outro carro, economizando dinheiro e tempo e foi então que às 03 horas da tarde desembarcamos na praia de Piatã, já em Salvador. Havíamos chegado em casa depois de uma semana.

Espero que este relato possa servir de inspiração para outros viajantes, principalmente para aqueles que tiverem a coragem de se desapegar do certinho, do limpinho, do quentinho e do confortozinho e possa se lançar com a cara e a coragem, apenas com o mínimo necessário para sobreviver. Com certeza irão conhecer um mundo fantástico, onde poucos têm coragem de ir, um lugar onde dinheiro vale muito pouco, onde posição social não vale nada, onde uma sombra e uma água de coco são as riquezas desejadas. Onde os companheiros de aventura terão um só objetivo, que é o bem comum de todos, onde o individualismo não terá vez. Poderão descobrir que a felicidade está nas coisas simples, nos elementos da natureza, na amizade desinteressada e isso não há dinheiro que pague.

Fotos: http://www.orkut.com.br/Main#AlbumList?rl=ms

Divanei – Fevereiro/ 2011

 

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